Archive for Março, 2013

  • Desaparecida

    Mar 26, 13 • felipecabral • Enredos da Terra, Home1 ComentárioLeia mais »
    Desaparecida

    Antes de dormir, no momento impreciso cuja tremulação se dá entre o consciente e o inconsciente, naquele estado meio devaneio meio ainda vigilante, sentia uma dor estranha, inexplicável. Era um momento incomum que nunca ouviu falar que os outros tinham, mas ela sabia o que era. Sabia sentindo sem muitas palavras para descrever. Mudavam as cores, mudavam os sons. De olhos fechados via flashes de bombas, de fumaças no céu, doía o pé, o peito apertava, cada dia de um jeito mas sempre doido, sempre confuso, sempre desconforto. Depois passava, vinha a preguiça, o calor confortável, a moleza, o sono. E dali pra diante só se lembrava de algo se fosse acordada, rompendo a barreira entre a loucura de qualquer coisa sem sentido que só os sonhos são capazes de produzir e sua mente pensando sobre sua mente. Um dia estava nesse processo descoberta, com pouca roupa e com a janela aberta. O que em geral durava poucos segundos durou, provavelmente, mais de uma hora. Então, para que não passasse em branco, acordou e resolveu fazer a coisa mais ridícula que lhe parecesse sobre isso: sentou e escreveu tudo, em detalhes. Depois amassou o papel e jogou fora. Ninguém sabe dizer se passou ou não, até porque, em não sendo daqui, de partida se foi e nunca mais voltou, nem se ouvir falar dela. Autora desaparecida

  • Desconhecido

    Mar 15, 13 • felipecabral • cotidiano, HomeNenhum ComentárioLeia mais »
    Desconhecido

    Você pegou aquele velho caderno triste de folhas soltas que há dez anos não via a luz e riu. Depois de dias preocupado, ausente, sem tempo: riu. Um riso irônico. Lembrou que sua vida foi forjada na inocência de mundos imaginados. E concluiu que era hoje, essa noite. O que fazer com o convite impossível que demorou para vir porque não era nem para ser de verdade? De viver naquela ponta paradisíaca do sul do continente, onde não neva nem esquenta demais e os rios encontram o mar, tem pinguins, poucas casas (todas com horta no quintal) e bicicleta é o único meio de transporte que precisa. E você acabou de se casar. Então você ama as duas coisas, mas as duas não se amam exatamente nas atuais condições. O check-mate sobrou na sua vez. Daí você conclui que é melhor dormir. E dorme um sono intranquilo. Todo dia. Acorda no meio da noite com dor de estomago te irritando, soprando um vento que sai da sua boca sussurrando: foge… foge… Mas tudo vai mudar quando sua filha nascer na primavera. Os sentidos vão ser outros, seus olhos, sua atenção… Seu carinho vai ser todo diferente, você pensa, ao mesmo tempo que olha para aquela foto em que está abraçado não sabe bem com quem e nem lembra mais o nome, só que ela estava naquele intercambio também. Porque ser

Felipe Cabral

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