Category ArchiveEnredos da Terra

Narradores do Açu

“Se ocê panhá um passarim que nasceu solto e botá na gaiola ele morre.”

Espaço marcado pelas mãos dos trabalhadores, que com muito suor dedicaram suas vidas a cuidar do campo é retirado sem dor. Produtores rurais do 5º Distrito de São João da Barra não tiveram tempo de contar suas histórias, só tempo para retirar seus pertences e deixar suas lembranças para trás. Suas terras desapropriadas serão utilizadas para a construção de estaleiros do Porto do Açu, com investimentos avaliados em mais de um bilhão de dólares, valor que não paga uma história de vida. Ana Paula Medeiros
 
Este webdoc se destina ao registro do que têm a dizer os atingidos pelas desapropriações no 5º Distrito de São Jõa da Barra.RJ.
 
Foi produzido por alunos do UNIFLU/FAFIC com a supervisão do professor da disciplina Narrativas e Linguagens Jornalísticas, Vitor Menezes.
 
As imagens contidas no webdoc estão disponíveis no YouTube e/ou foram cedidas.
 
Campos dos Goytacazes, julho de 2011.

Dia do Saci!

O dia do Saci está chegando, minha gente! É no próximo 31 de Outubro! Para comemorar, antecipadamente, publico aqui uma história muito bacana do meu amigo Ricardo Azevedo!
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Gente como a gente, habitante da cidade grande, acostumado com luz elétrica, entregador de pizza, televisão, poluição, telefone celular e computador não entende nada de Saci e só vai ver o Saci no dia de São Nunca. Acontece que o Saci é filho do mistério, filho do vento que assobia, filho das sombras que formam figuras no escuro, filho do medo de assombração.

O Saci é uma dessas coisas que ninguém explica. Por exemplo, é muito fácil explicar uma casa. Ela tem tijolos, paredes, janelas e serve para morar. É muito fácil também explicar um cachorro. Pertence à espécie canina, late, abana o rabo, às vezes morde, faz xixi no poste, é amigo das pulgas(bem alguns nem tanto) e serve para tomar conta de casas ou apartamentos. Agora tente explicar o gosto. Por que tem gente que só gosta de Rock Pauleira e tem gente que só ouve musica Clássica ou então Pagode?

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Experimente explicar a beleza ou o sentimento, ou as coincidências que acontecem, ou sonhos, ou um pressentimento. Você já teve um pressentimento? Já sentiu que uma coisa ia acontecer e no fim ela aconteceu mesmo? Pois bem, agora tente explicar.

As vezes a gente está calmamente em casa com algo na mão. O telefone toca, a gente atende, bate um papo e quando desliga cadê a coisa que a gente estava segurando? Sumiu! A gente não consegue acreditar. A coisa estava aqui agorinha mesmo! A gente procura em todo canto, xinga, reclama, arranca os cabelos, vira a casa de cabeça para baixo e nada. De repente olha para o lado…Não é possível! A coisa está ali bem na cara da gente. Numa casa de Caboclo, quando isso acontece, as pessoas dizem que foi obra do Saci. Dizem que o saci é que tem mania de esconder as coisas e depois fica escondido dando risada enquanto a gente faz papel de bobo.

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É, Saci é um ser misterioso, habitante do mato. Sua aparência é a de um negrinho, pequeno e risonho, de uma perna só, com um capuz vermelho enterrado na cabeça, sem pelos no corpo nem órgãos para fazer necessidades. Costuma ter três dedos nas mãos, tem as mãos furadas e quando quer solta um assobio misterioso e fica invisível. Além disso vive com o joelho machucado e sabe comandar os mosquitos e pernilongos que vivem atazanando a vida da gente.

Ah, tem outra coisa, o malandrinho aprecia fumar cachimbo e consegue soltar fumaça pelos olhos. Quando está de bom humor pode ajudar as pessoas a encontrarem objetos perdidos. Em compensação, adora pregar as piores peças nos outros, faz os viajantes errarem seus caminhos, esconde dinheiro, esconde coisas de estimação, faz vasos, pratos e copos caírem sem motivo e quebrarem, gostar de aprontar com os bichos e é especialista em fazer comida gostosa dar dor de barriga.

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De vez em quando, o saci sai girando em volta de si mesmo feito um peão maluco e gira tanto, tanto, tanto, que até levanta as folhas secas e a poeira do chão. Alias, muitos afirmam que ele é a única explicação possível para a existência dos roda moinhos.

O Saci tem vários nomes dependendo da região onde aparece. Pode ser Saci-Sererê, Saci-Pererê, Saci-Sassura, Saci-Sarerê, Saci-Siriri, Saci-Tapererê ou Saci-Triti. As vezes é chamado de Matitaperê, ou Matita-Pereira, ou Sem-Fim, que na verdade são nomes de pássaros. É que em certos lugares dizem que o danado, quando perseguido, dá risada, vira passarinho e desaparece deixando todo mundo de queixo caído.

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Mas, o Saci pode ser perigoso. As vezes, chama as criancinhas, canta, dança, inventa lindas histórias e acaba fazendo as inocentes se perderem na floresta. Pode também fazer um caçador entrar no mato e nunca mais voltar para casa.

Para dominar o Saci só tem um jeito. Primeiro, pegar uma peneira. Segundo, esperar um rodamoinho dos fortes. Terceiro, atirar a peneira bem em cima do pé-de-vento. Quarto, agarrar o Saci que vai estar preso na peneira. E quinto, prender o espertinho dentro de uma garrafa. Sem aquele goro vermelho o Saci fica apavorado, geme, choraminga, fala palavrão, implora e acaba fazendo tudo que a gente quer.

saci9

É bom morar na cidade, mas, bem que seria legal, um dia, assim derrepente, encontrar um Saci de verdade fazendo bagunça, fumando cachimbo, soltando fumaça dos olhos, virando passarinho e sumindo no espaço. É ou não é?

AZEVEDO, Ricardo. Armazém do folclore. Ed.Ática, São Paulo, 2003.

www.sosaci.org

Sociedade dos observadores de Saci.

www.ancsaci.com.br

Associação Nacional dos Criadores de Saci.

www.criadoresdesaci.blig.ig.com.br

Criadores de Saci

http://eosaciurbano.org/aparicoes/

Aparições do Saci

Brincadeira “Cadê o Saci?” – Por Daniel D’Andrea

Brincadeira “Geografia do Saci” – mapa

Brincadeira “Geografia do Saci” – questões

Desaparecida

M.M.Antes de dormir, no momento impreciso cuja tremulação se dá entre o consciente e o inconsciente, naquele estado meio devaneio meio ainda vigilante, sentia uma dor estranha, inexplicável. Era um momento incomum que nunca ouviu falar que os outros tinham, mas ela sabia o que era. Sabia sentindo sem muitas palavras para descrever. Mudavam as cores, mudavam os sons. De olhos fechados via flashes de bombas, de fumaças no céu, doía o pé, o peito apertava, cada dia de um jeito mas sempre doido, sempre confuso, sempre desconforto. Depois passava, vinha a preguiça, o calor confortável, a moleza, o sono. E dali pra diante só se lembrava de algo se fosse acordada, rompendo a barreira entre a loucura de qualquer coisa sem sentido que só os sonhos são capazes de produzir e sua mente pensando sobre sua mente.

Um dia estava nesse processo descoberta, com pouca roupa e com a janela aberta. O que em geral durava poucos segundos durou, provavelmente, mais de uma hora. Então, para que não passasse em branco, acordou e resolveu fazer a coisa mais ridícula que lhe parecesse sobre isso: sentou e escreveu tudo, em detalhes. Depois amassou o papel e jogou fora. Ninguém sabe dizer se passou ou não, até porque, em não sendo daqui, de partida se foi e nunca mais voltou, nem se ouvir falar dela.

Autora desaparecida.

Todos os sentidos em Três Corações

Relato sobre a experiência da educação não-formal com a produção de minidocumentários em software livre na semana de tradição oral de 2012 do Museu da Oralidade de Três Corações – MG

Esta é uma escrita breve sobre momentos densos. Um relato curto de uma experiência marcante. Se Drummond pudesse dizer algo sobre isso, talvez dissesse “Brincar com crianças não é perder tempo, é ganhá-lo; se é triste ver meninos sem escola, mais triste ainda é vê-los sentados enfileirados em salas sem ar, com exercícios estéreis, sem valor para a formação de alguém“. Aos que aqui se aventurarem na leitura, peço licença para contar o que se passou do jeito que consegui ver e desculpas por não conseguir presentificar cada um dos sentidos apalpados, olhados, cheirados, ouvidos e gostados pois foram todos vividos. Então vamos lá…
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Ideias com pé e cabeça

Certo dia, com muito tato e simpatia, recebi uma ligação de Minas Gerais da qual não sabia identificar o número. Atendi e do outro lado estava o jornalista Paulo Morais, um dos atuais gestores do Museu da Oralidade da cidade de Três Corações.

Para quem não conhece ou não se lembra, Três Corações é uma das cidades situadas na Serra da Mantiqueira, no sul do estado de Minas Gerais. Paulo ligava para fazer um convite e ao mesmo tempo propor um desafio. O Museu iria sediar a 2° edição da Semana de Tradição Oral de Três Corações e eles queriam fazer algo diferente. Ao invés de construir uma programação com mostras de documentários a ideia era produzir, isto é, colocar a mão na massa, e promover a experiência de fazer documentários, expondo os participantes a vivências de produção. E não acabava por aí. O desafio dessa empreitada estava em produzir esse documentários com softwares 100% livres (open source).

 

“Sem a curiosidade que me move, que me inquieta,
que me insere na busca, não aprendo nem ensino”
Paulo Freire

 

Titubeei um pouco, estava cheio de compromissos pendentes e uma viagem internacional marcada, mas logo aceitei o desafio. Mal sabia que isto resultaria numa das experiências mais plenas dentro das perspectivas de ação educativa não-formal propostas outrora pelo programa Cultura Viva. Depois dessa ligação, tempo passou, até que chegou o dia de ir até lá…
Quantos olhares são necessários para iniciar um trabalho em conjunto? Quantos olhares são trocados antes que afinidades sejam percebidas? Dificil dizer. E quando não é necessário nenhum olhar trocado? Nenhum olhar para que as coisas fluam de uma maneira tão rápida e integrada que quem vê de longe tem certeza que os dalí se conhecem há anos? É a sintonia que faz isso, diriam alguns. Particularmente não sei dizer, mas arrisco um palpite: para cada sentido desejado existe um meio potente e possível, muitas vezes afirmado nas entrelinhas, de realização disso e a percepção desses movimentos pode se dar muito mais rápido do que qualquer protocolo é capaz de comunicar.
Cheguei na cidade numa quarta-feira, dia 16 de maio. Não foram necessários muitos olhares trocados para perceber que queriamos olhar e buscar as fotografias mais sinceras dos retratos mais cadentes daqueles lugares por onde passassemos.   Sai de São Paulo no inicio de uma madrugada fria e o dia foi amanhecendo enquanto eu dormia. Saí do cinza e dos prédios e cheguei numa praça com um jardim, cercada de ladeiras estreitas.
O trabalho já havia começado. Desde segunda-feira o Paulo havia reunido as turmas e começado a falar sobre o que era um documentário, para que as pessoas achavam que servia, pra que achavam que não servia, como eram feitos os roteiros, como eram os processos de produção envolvendo captura de imagens, coleta de depoimentos, edição, pós-edição e uma porção de coisas que deixaram o povo bem intrigado.
Quando cheguei me deparei com um grupo bastante heterogêneo: crianças, adolescentes, adultos, de 10 a 55 anos. Fizemos uma roda. O dia começou em silêncio e aos poucos cada um foi falando pouco a pouco porque estava ali. Mal sabíamos que sairíamos dessa experiência bastante transformados…

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Roda gira, gira roda…

Depois de uma apresentação coletiva na qual cada um era convidado a falar sobre sua idade, interesses de estudo, gostos e jeitos de aprender, comecei a mostrar e a descrever os equipamentos que usaríamos. Entre nossas ferramentas iamos ter duas câmeras que filmavam em (full hd 1920×1080) no formato AVCHD, 3 ou 4 câmeras de fotografia de bolso, celulares, um microfone com entrada p2 para as câmeras e um gravador de voz. A ideia era aproveitar qualquer coisa que estivesse a mão para os registros, sem se ater necessariamente ao uso de equipamentos considerados profissionais.

Foram formados 6 grupos, sendo 3 de manhã e 3 a tarde. Cada grupo escolheu um tema, sem qualquer tipo de censura ou preâmbulo, para trabalhar. Os grupos do período matutino escolheram os seguintes documentários para construir:

  • Grupo 1) O Sorriso – Minidocumentário sobre os valores e significados contidos em um sorriso;
  • Grupo 2) As esculturas do sr. Oswaldo – Minidocumentário sobre o fazer artístico do famoso artista de madeira Oswaldo Inácio;
  • Grupo 3) Composição – Um metadocumentário que tinha como pressuposto documentar o processo de feitura dos documentários anteriores.

Já os grupos do período vespertino escolheram estes outros:

  • Grupo 4) OnLine / OffLine – Minidocumentário que trás dois senhores de mais de 60 anos e suas respectivas visões sobre a Internet, sendo um deles super conectado e o outro o inverso;
  • Grupo 5) Intransitivo – Minidocumentário sobre as dificuldades enfrentadas por pedestres e motoristas no trânsito da cidade de Três Corações;
  • Grupo 6) Vitrais da História – Minidocumentário sobre os centenários vitrais das antigas igrejas de Três Corações.

Escolhidos os temas, cada grupo passou 2 dias (segunda, terça) coletando as imagens principais e os demais dias coletando imagens complementarem, intercalando momentos de gravação/captação com momentos de edição. Durante todos os dias, no meio da manhã e no meio da tarde, éramos interrompidos por um intenso e delicioso cheiro de café e pão de queijo que vinha logo seguido do convite para invadir a cozinha. De todos os sentidos o paladar também estevem presente.

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Do processos e das receitas

Todo processo de educação não-formal pode ser muito beneficiado, na minha opinião, quando feito sob pauta de uma boa documentação e de bons parametros, sem que isso tenha necessariamente que significar a imposição de receitas ao processo. Pensando assim, elaborei um roteiro prévio, como uma espécie de plano de aula, a ser tomado como base, de modo a não comprometer as possibilidades de experimentação ou as possíveis limitações que ísurgissem ao longo do caminho. Este roteiro foi apresentado aos participantes como uma maneira de dizer que poderiamos seguir esse plano. Os escritos ficaram registrados e podem ser acessados aqui na Wiki do projeto Nós Digitais:

 

 

Entre as perguntas iniciais que facilitam bastante a tomada de consciência das identidades do grupo e as possíveis decisões coletivas estão:

 

1 – Orientador/Oficineiro se apresenta;

2 – Rodada de apresentação dos participantes com as seguintes perguntas norteadoras

2.1 – Nome? Idade? Região de origem? Profissão/Trabalho/Área de Estudos?

2.2 – Como é sua experiência com computador? Iniciante? Médio? Avançada? Usa para trabalhar?

2.3 – Qual sistema operacional que costuma utilizar?

2.4 – Já conhece quais softwares de edição gráfica?

2.5 – Quais são seus interesses na oficina?

2.6 – O que gostaria de aprender?

3.0 – O que é Software Livre?

3.1 – O que faz de um software ser “Livre”? (vale lembrar que o tempo e a profundidade de abordagem dessa questão pode variar de acordo com a percepção do educador);

4.0 – O que são licenças permissivas?;

A escolha de uso da wiki está intimamente ligada a proposta de livre melhorias, alterações e derivações desse tipo de documentação. Sendo assim, tanto eu, na posição de oficineiro, quanto o Luiz de 11 anos que participou da oficina na posição de documentarista, podem ter um espaço compartilhado de trabalho e registro na web.
Como ferramentas digitais de trabalho escolhemos usar o Kdenlive. Mas podiamos ter usado qualquer outra ferramenta opesource como o Cinelerra, o Jahshaka, o Blender ou mesmo o Lives.

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Seis Mini produções e uma noite de exibições

Ao todo, durante essa semana de tradição oral, foram realizados 6 minidocumentários de duração de 5 minutos. Cada qual com um tema totalmente distinto dos demais, como já mencionado acima. Os documentários experimentais e frutos desse processo de aprendizagem-criação foram todos finalizados e exibidos ao final desta jornada de uma semana de trabalho. Mas antes deste exibição que marcou um pouco a conclusão desta semana de imersão, destaco dois momentos marcantes que também fizeram parte das comemorações: a exibição do documentário ≠ Diferente (linkado como 7° vídeo abaixo) produzido pela equipe do Museu e a apresentação musical do grupo Ciranda Balaio de Minas (foto acima).
Por fim, quero agradecer ao Paulo Moraes, a Andressa Gonçalves, a Danielle Terra, ao Ronildo Prutente, a todos os demais membros da equipe do Museu da Oralidade e da Viraminas, ao Luiz Guilherme de 11 anos que quase cabulou as aulas na escola para participar mais, aos demais participantes das oficinas, aos entrevistados e entrevistadas para os documentários, ao público que esteve conosco e que veio assistir as apresentações. Muito obrigado a todos vocês. Espero encontrá-los novamente um dia, seja fazendo documentários ou em qualquer outra situação.
Seguem abaixo os vídeos.

As esculturas do Sr. Oswaldo

Intransitivo

Online Offline

Vitrais da história

Composição

  ≠ Diferente

Onde foi?
Semana de Tradição Oral
Local: Museu da Oralidade
(Rua Padre José Bueno, 170 – Centro – ao lado da Escola Luiza Gomes)
Apresentações e oficinas: de 15 a 18 de maio de 2012
Informações: 011 3231-2690
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Rubem Alves, o Contador de Histórias, fala sobre o professor e a escola de um outro tempo

Enredando palavras mais uma vez de uma maneira pra lá de inteligente, Rubem Alves fala um pouco de suas percepções sobre a escola e o professor.

El Derecho al Delirio

CRÉDITOS – DECLAMACIÓN: EDUARDO GALEANO
Definición: Para qué sirve la “Utopía” por Fernando Berri
El Derecho al Delirio escrito por Eduardo Galeano
Entrevista a Eduardo Galeano, este trecho está direccionado a los movimientos populares (#Spanishrevolution_ M15 )
Vídeos Originales en el YouTube.com: Eduardo Galeano Sobre #Spanishrevolution_ M15 [1,2,3]

CRÉDITOS – DECLAMAÇÃO: EDUARDO GALEANO
Definição: Para que serve a “Utopia” por Fernando Berri
O Direito ao Delírio escrito por Eduardo Galeano
Entrevista a Eduardo Galeano, este fragmento está destinado aos movimentos populares (#Spanishrevolution_ M15 )
Vídeos Originais em YouTube.com: Eduardo Galeano Sobre #Spanishrevolution_ M15 [1,2,3]

CREDITS – DECLAMATION: EDUARDO GALEANO
Definition: What is use of “Utopia” by Fernando Berri
The Right to the Delirium written by Eduardo Galeano
Interview with Eduardo Galeano, this fragment is addressed to the popular movements (# Spanishrevolution_ M15)
Original Videos in YouTube.com: Eduardo Galeano Sobre Spanishrevolution_ M15 # [1,2,3]

Dia do Saci

O dia do Saci está chegando, minha gente! É no próximo 31 de Outubro! Para comemorar, antecipadamente, publico aqui uma história muito bacana do meu amigo Ricardo Azevedo!

O Saci

Gente como a gente, habitante da cidade grande, acostumado com luz elétrica, entregador de pizza, televisão, poluição, telefone celular e computador não entende nada de Saci e só vai ver o Saci no dia de São Nunca. Acontece que o Saci é filho do mistério, filho do vento que assobia, filho das sombras que formam figuras no escuro, filho do medo de assombração.

O Saci é uma dessas coisas que ninguém explica. Por exemplo, é muito fácil explicar uma casa. Ela tem tijolos, paredes, janelas e serve para morar. É muito fácil também explicar um cachorro. Pertence à espécie canina, late, abana o rabo, às vezes morde, faz xixi no poste, é amigo das pulgas(bem alguns nem tanto) e serve para tomar conta de casas ou apartamentos. Agora tente explicar o gosto. Por que tem gente que só gosta de Rock Pauleira e tem gente que só ouve musica Clássica ou então Pagode?

Experimente explicar a beleza ou o sentimento, ou as coincidências que acontecem, ou sonhos, ou um pressentimento. Você já teve um pressentimento? Já sentiu que uma coisa ia acontecer e no fim ela aconteceu mesmo? Pois bem, agora tente explicar.

As vezes a gente está calmamente em casa com algo na mão. O telefone toca, a gente atende, bate um papo e quando desliga cadê a coisa que a gente estava segurando? Sumiu! A gente não consegue acreditar. A coisa estava aqui agorinha mesmo! A gente procura em todo canto, xinga, reclama, arranca os cabelos, vira a casa de cabeça para baixo e nada. De repente olha para o lado…Não é possível! A coisa está ali bem na cara da gente. Numa casa de Caboclo, quando isso acontece, as pessoas dizem que foi obra do Saci. Dizem que o saci é que tem mania de esconder as coisas e depois fica escondido dando risada enquanto a gente faz papel de bobo.

É, Saci é um ser misterioso, habitante do mato. Sua aparência é a de um negrinho, pequeno e risonho, de uma perna só, com um capuz vermelho enterrado na cabeça, sem pelos no corpo nem órgãos para fazer necessidades. Costuma ter três dedos nas mãos, tem as mãos furadas e quando quer solta um assobio misterioso e fica invisível. Além disso vive com o joelho machucado e sabe comandar os mosquitos e pernilongos que vivem atazanando a vida da gente.

Ah, tem outra coisa, o malandrinho aprecia fumar cachimbo e consegue soltar fumaça pelos olhos. Quando está de bom humor pode ajudar as pessoas a encontrarem objetos perdidos. Em compensação, adora pregar as piores peças nos outros, faz os viajantes errarem seus caminhos, esconde dinheiro, esconde coisas de estimação, faz vasos, pratos e copos caírem sem motivo e quebrarem, gostar de aprontar com os bichos e é especialista em fazer comida gostosa dar dor de barriga.

De vez em quando, o saci sai girando em volta de si mesmo feito um peão maluco e gira tanto, tanto, tanto, que até levanta as folhas secas e a poeira do chão. Alias, muitos afirmam que ele é a única explicação possível para a existência dos roda moinhos.

O Saci tem vários nomes dependendo da região onde aparece. Pode ser Saci-Sererê, Saci-Pererê, Saci-Sassura, Saci-Sarerê, Saci-Siriri, Saci-Tapererê ou Saci-Triti. As vezes é chamado de Matitaperê, ou Matita-Pereira, ou Sem-Fim, que na verdade são nomes de pássaros. É que em certos lugares dizem que o danado, quando perseguido, dá risada, vira passarinho e desaparece deixando todo mundo de queixo caído.

Mas, o Saci pode ser perigoso. As vezes, chama as criancinhas, canta, dança, inventa lindas histórias e acaba fazendo as inocentes se perderem na floresta. Pode também fazer um caçador entrar no mato e nunca mais voltar para casa.

Para dominar o Saci só tem um jeito. Primeiro, pegar uma peneira. Segundo, esperar um rodamoinho dos fortes. Terceiro, atirar a peneira bem em cima do pé-de-vento. Quarto, agarrar o Saci que vai estar preso na peneira. E quinto, prender o espertinho dentro de uma garrafa. Sem aquele goro vermelho o Saci fica apavorado, geme, choraminga, fala palavrão, implora e acaba fazendo tudo que a gente quer.

É bom morar na cidade, mas, bem que seria legal, um dia, assim derrepente, encontrar um Saci de verdade fazendo bagunça, fumando cachimbo, soltando fumaça dos olhos, virando passarinho e sumindo no espaço. É ou não é?

AZEVEDO, Ricardo. Armazém do folclore. Ed.Ática, São Paulo, 2003.

 

Sites do Saci:

Sociedade dos observadores de Saci: http://www.sosaci.org/

Aparições do Saci: http://eosaciurbano.art.br

 

 

Ação Grio – Políticas Públicas para o Contadores de Histórias

Lá vai, lá vai, lá vai, a sandália leva o homem e o homem a história.
Musica do mestre Griô Paraquedas do Ponto de Cultura Odômodê

São tempos de novos olhares para antigas expressões culturais que hoje alguns classificam como arte. Nesse bojo está o fazer do Contador de História. Pensando nesse tema aproveito esse espaço para escrever uma postagem relacionada a políticas públicas envolvendo o contar histórias, um tema tão especial a mim. Começo pela “Ação Grio”.

As primeiras lembranças que tenho dessa ação vem de reflexões e considerações feitas por integrantes do projeto “Grãos de Luz”, de Lençóis – BA, que com o tempo ganhou espaço de fomento pelo Ministério da Cultura. Em 2006 a ação ganhou seus primeiros formatos já com esse nome, numa associação ao programa Cultura Viva. Lembro-me de ter participado da 1° Teia Nacional dos Pontos de Cultura e de ter encontrado Líllian Pacheco e Márcio Caíres num debate e de ter conhecido o documentário que na época eles havia empreendido com registros de viagens pelo Brasil e ações locais em Lençois. (foto ao lado)

Desta ocasião em diante o projeto só cresceu e ganhou cada vez mais cores, sons e desdobramentos. Houve ampliação das ações em formato de rede (Rede Ação Griô), encontros regionais, participação dos integrantes em fóruns e espaços de discussão e fomento cultural, entre muitas outras coisas.

A Rede Ação Griô, por exemplo, se articula na maioria dos casos em conjunto com a dos Pontos de Cultura, o que fortalece ambas. Um exemplo, no sul do Brasil, é a parceria entre o Quilombo do Sopapo e a Ação Griô de Pelotas, encontro que resultou registro audiovisual sobre a construção do sopapo pelo Mestre Batista e na composição de músicas por Richard Serraria e Marcelo, músicos e ativistas do movimento Música para baixar. O sopapo é um instrumento de percussão muito importante para a cultura afrogaúcha e também para a rede de culturas do Brasil e certamente o encontro de pontos de cultura ligados a cultura digital pode fortalecer e estabelecer trocas importantes com a Ação Griô.

Ação Griô, em poucas palavras portanto, é uma rede de educação e cultura de tradição oral. Faz parte do Programa Cultura Viva do Ministério da Cultura enquanto apoio por meio de alguns editais o que não impede de num futuro próximo ou distante essa caracterização mudar. Entre seus objetivos principais está a estimulação da ligação entre os educadores e a comunidade numa perspectiva da transmissão dos saberes por meio de narrativas de tradição oral.

Este é o portal da ação: http://www.acaogrio.org.br

O canal deles no YouTube está recheado de muita coisa bonita e interessante: http://www.youtube.com/user/graosdeluz

Se você também conhece outras políticas públicas voltadas a Contadores de Histórias ou mesmo outras ações públicas ou privadas que estejam relacionadas a temática, deixe um comentário por aqui. Listo abaixo alguns vídeos interessantes que descobri pelos caminhos da rede. Se souber de outros que trazem menções, canções, danças, performances ou vivências parecidas, compartilhe por aqui também!

Pequeno documentário sobre o projeto Grãos de Luz e Griô:

E aqui uma entrevista com Marcelo Manzatti, atropólogo que na época deste registro era responsável por algumas das frentes desse projeto junto ao Ministério:

Lá vai, Lá vai… – Mestre Paraquedas e PC Barbosa:

Civilização e Barbárie: bocas do tempo de Eduardo Galeano

De volta a São Paulo depois de uma viagem cheia de conversas, pessoas, lugares, encontros, coloco-me novamente a refletir sobre o poder e o papel da narrativa na humanização de um mundo para além da coisificação, do ter e da propriedade. Durante a viagem encontrei coisas não esperadas, mas que vieram muito bem ao encontro do que tenho planejado.

Estou lendo 3 livros no momento. “Caim” do Saramago, “Novos possíveis no encontro da Psicologia com a Educação” de diversos autores (é uma coletânea de artigos publicados pela Casa do Psicólogo. Livro emprestado por uma figura muito bacana e especial.) e “Bocas do Tempo” do Eduardo Galeano, livro que comprei numa banca de jornal.

Vale destaque para esse último. Sempre gostei do Galeano, mas nunca tinha tido oportunidade de ler nada além do “livro dos abraços” e do “memórias do fogo”.

Muito interessante esse conto (o livro tem uma porção de contos, um por página):

“Enquanto os deuses dormem ou fingem dormir as pessoas caminham. É dia de feira neste povoado perdido nos arredores de Totonicapan e o vaivém é grande.

De outras aldeias chegam mulheres carregando pacotes pelas veredas verdes. Elas se encontram na feira, hoje, aqui, acolá, neste povoado e em outro, como dentes que vão saltando à boca, e conversando vão sabendo das novidades, lentamente, enquanto vendem, pouco a pouco, uma coisinha ou outra.
Uma velha senhora estende seu lenço no chão e alí deita sua mercadoria: defumador feito de cacto, tinturas de anil e colchonilha, algumas pimentas bem picantes, ervas coloridas, um jarro de mel silvestre, uma boneca de pano e um boneco pintado, faixas, cordões, fitas, colares de sementes, pentes de osso….

Um turista recém chegado à Guatemala quer comprar tudo.

Como ela não entende, ele explica com as mãos: tudo. Ela nega com a cabeça. Ele insiste: você me diz quanto quer, eu digo quanto pago. E repete: compro tudo. Fala cada vez mais alto. Grita. Ela, estátua sentada, se cala.

O turista, cansado, vai embora. Pensa: este país não vai chegar a lugar nenhum. Ela vê como ele se afasta. Pensa: minhas coisas não querem ir embora com você.”

Forte, né? Sincero e direto como a vida tem de ser.

A lírica da rosa e o retrato do povo: Drummond e a produção poética dos anos de guerra

Escrevi recentemente um artigo que trata da análise dos significados que o paralelo dos termos rosa e povo podem ter, através da leitura crítica de dois poemas do livro “A rosa do povo”, de Carlos Drummond de Andrade. Drummond sempre foi um de meus poetas preferidos e agora tive a oportunidade de, sob a orientação do professor Marcus Lash, analisar sua obra de uma perspectiva um tanto mais profunda. Deixo aqui o produto final desses estudos, o artigo “A lírica da rosa e o retrato do povo: Drummond e a produção poética dos anos de guerra“.


A lírica da rosa e o retrato do povo: Drummond e a produção poética dos anos de guerra.1

Felipe Cabral 2

A grandeza de uma obra de arte está fundamentalmente no seu caráter ambíguo,

que deixa ao espectador decidir sobre o seu significado.

Theodor W.Adorno

Palavras-chave:

A rosa do povo, Drummond, Adorno, crítica literária;

Resumo:

O presente artigo trata da análise dos significados que o paralelo dos termos rosa e povo podem ter, através da leitura crítica de dois poemas do livro “A rosa do povo”, de Carlos Drummond de Andrade.

Tal estudo é aqui apresentado sob a consideração dos elementos sócio-políticos, dos anos em que foram escritos – período relativo à segunda grande guerra -, contidos em três poemas, bem como em toda obra; fundamentados a partir da concepção adorniana de poética, lírica e sociedade.

Objetivos:

  • Estabelecer relações de entendimento dos poemas “A flor e a náusea” e “Anúncio da rosa”, presentes no livro “A rosa do povo” de Carlos Drummond de Andrade, com fatores do contexto sócio-político vivenciado na época do escrita dos mesmos;

  • Contrapor os poemas, bem como outros da obra em questão, à análise crítica sobre lírica e sociedade proposta por Theodor W.Adorno.

Introdução

Escrever sobre a poesia de Drummond, após mais de meio século de crítica literária em seu favor ou contra suas formas, ora inovadoras ora transgressoras, não se conjuga como tarefa reles nem de rápida feitura. Entretanto, faz-se aqui um esforço para dar luzes a pontos de uma de suas obras mais densas: A rosa do povo. Sabendo de antemão a grandeza e a dificuldade de conduzir tal intento, passemos a uma breve contextualização para, posto isso, levar às análises desejadas.

Drummond possui um conjunto de obras relativamente vasto3. São 29 livros de poesia, 09 antologias poéticas, 03 livros infantis e 19 livros de prosa. Dentro deste conjunto, o livro “A rosa do povo” é o 5° livro de poesia, escrito e publicado, ainda em vida, pelo próprio autor. Nesta obra encontram-se 55 poemas escritos no decorrer de dois anos – 1943-1945.

Há 23 anos passados da famosa e consagradora semana de 224a publicação desta obra se deu em 1945 – Drummond já não era mais o poeta iniciante, o “doido que escrevia sobre pedras”5. O mundo também já não era mais o mesmo e os prognósticos pareciam, a todo e qualquer homem ciente das barbáries da guerra que eclodira no mundo, bastante desoladores.

Governos democráticos entravam em choque, Estados totalitários firmavam-se por toda parte, diretos humanos eram sumariamente revogados e a arte, a bem dizer por muito mais de reles 23 anos, encontrava-se cada vez mais mercantilizada pela consolidação do moderno capitalismo insurgente desde meados do século XVIII com a Revolução Industrial.

É neste cenário que encontra-se Drummond no ano de 1943 quando inicia a produção de uma série de poemas que culminariam no conjunto a qual viria a publicar sob o título de “A rosa do povo”. Dito isso, passemos diretamente as marcas e significados trazidos pelos poemas.

A flor e a náusea: o inesperado como esperança e de um novo paradigma social.

Neste poema – a flor e a náusea -, logo no verso inicial, temos uma voz que possui juízo de consciência de classe6, sob a qual está presa e sob a qual questiona-se, ao final da 1° estrofe, sobre a possibilidade de mudanças sem o intermédio da força. Posso, sem armas, revoltar-me? Pergunta pressupondo que revoltas e armas são instâncias de ligação quase automáticas entre si. Não é estranho perguntar-se pois revoltar-se com armas, ao que parece, é o caminho mais comum.

Na sequência – estrofes 2, 3, 4, 5 e 6 – temos os desgostos do mundo vivido e as preocupações com a vulgaridade em que se converteu o estado das coisas. Várias são as afirmações de descrédito na cena vivida do cotidiano e nas mais importantes instâncias da vida. O tempo é de espera, o poeta é pobre, as coisas são tristes, o tédio consome, os homens são menos livres e tudo conduz a um ódio que no fundo é a melhor parte desse eu-lírico.

As três últimas estrofes, porém, mudam completamente o rumo da toada. Uma flor nasceu na rua!, exclama o primeiro verso da 7° estrofe.

Como algo sui generis, uma flor, a qual não se identifica a exatidão de que seja, rompe o asfalto e nasce no meio da rua, produzindo a ressignificação do estado das coisas postas. Uma flor, ainda que desbotada, sem precedentes no conhecimento humano até o presente – seu nome não está nos livros – é o que conduzirá a quebra do tédio, do nojo e do ódio, sentimentos presentes desde o inicio dos versos do poema.

A flor aí, portanto, seria algo inesperadamente desconhecido, mas que ao surgir, modifica toda a realidade vigente. Não é declarado o seu valor metafórico, podendo ser uma nova politica, um novo sentimento, um novo despertar para os valores humanos ou até mesmo uma nova arte – poética ou não – que ao surgir tal qual uma flor no meio do asfalto sem vida mexe com os sentimentos daquele que lentamente contempla suas formas.

Tal leitura do poema a flor e a náusea nos permite citar uma importante e categórica passagem da palestra sobre lírica e sociedade na qual somos convidados a pensar sobre as emoções e experiências individuais em contraste com emoções e experiências universais, presentes e refletidas na poesia e na arte de modo geral.

O teor [gehalt] de um poema não é a mera expressão de emoções e experiências individuais. Pelo contrário, estas só se tornam artísticas quando, justamente em virtude da especificação que adquirem ao ganhar forma estética, conquistam sua participação no universal. Não que aquilo que o poema lírico exprime tenha de ser imediatamente aquilo que todos vivenciam. Sua universalidade não é uma volonté de tous, não é a mera comunicação daquilo que os outros simplesmente não são capazes de comunicar. Ao contrário, o mergulho no individuado eleva o poema lírico ao universal por tornar manifesto algo de não distorcido, de não captado, de ainda não subsumido, anunciando desse modo, por antecipação, algo de um estado em que nenhum universal ruim, ou seja, no fundo algo particular, acorrente a outro, o universal humano. A composição lírica tem esperança de extrair, da mais irrestrita individuação, o universal.” (ADORNO; P. 66)

Da cena de uma flor que irrompe do asfalto, da força da imagem de algo delicado e sensível que perfura o inerte e duro solo da estrada, temos a sensação do inesperado que traz esperança. Vale ressaltar a simbologia presente nestes dois elementos, nessas duas palavras – flor-asfalto. Ao passo que a primeira é símbolo de beleza e sensibilidade – mesmo que no poema seja adjetivada como desbotada e feia – a segunda, asfalto, é simbolo de progresso industrial, de modificação do meio natural pelo homem.

Da particular cena do natural que luta contra o irrefreado estado de progresso, da individual experiência de ver nascer uma flor em meio ao asfalto da entediante e pobre cidade, temos o universal do sentimento, o universal das esperanças renovadas pelo novo que chega e que pura e simplesmente por chegar já modifica a mesmice até então instaurada. Entretanto o caráter desta universalidade, certamente social, se dá a medida que nos deixamos levar pela leitura sensível e pela reflexão exigente dos valores da palavra poética.

Essa universalidade do teor lírico, contudo, é essencialmente social. Só entende aquilo que o poema diz quem escuta, em sua solidão, a voz da humanidade; mais ainda, a própria solidão da palavra lírica é pré-traçada pela sociedade individualista e, em última análise, atomística, assim como, inversamente, sua capacidade de criar vínculos universais [allgemeine Verbindlinchkeit] vive da densidade de sua individuação. Por isso mesmo, o pensar sobre a obre de arte está autorizado e comprometido e perguntar concretamente pelo teor social, a não satisfazer com o vago sentimento de algo universal e abrangente. Esse tipo de determinação pelo pensamento não é uma reflexão externa e alheia a arte, mas antes uma exigência de qualquer configuração linguística.” (ADORNO; P. 67)

Anúncio da rosa: a mercantilização da arte poética.

Neste segundo poema – Anúncio da rosa – temos novamente o símbolo da flor e/ou rosa como centro das significações metafóricas. Já no título do poema surge o termo rosa, que além de dialogar diretamente com o título do livro, é trazido com as cargas imagéticas conquistadas no poema a flor e a náusea. Parece haver, portanto, não apenas uma intertextualidade entre este poema e o título do livro, mas entre este poema e demais poemas que compõem a obra.

A flor/rosa é algo que custa trabalho e por assim ser não pode ser vendida a pouco valor. Traz consigo auroras, sugere instâncias, conduz a exotismos e a catarses. Seria então o que a tal rosa? Se no poema A flor e a náusea temos a flor como o inesperado que surge para deslocar toda a morosidade vivida, aqui, em Anúncio da rosa temos a flor/rosa como a preceptora de auroras, exotismos e catarses, abstrações que poderiam também se encaixar dentro do plano do inesperado que conduz a novas sensações.

Na quarta estrofe temos o verso: Autor da rosa, não me revelo, sou eu, quem sou? – no qual o eu-lírico, afirmado com autor da rosa, indaga-se sobre alguma identidade. Ora, se a rosa tem autor, seria, então, ela um poema ou uma obra poética inteira? É o que nos faz perguntar, deixando suspenso no ar o fechamento dessa ideia ao leitor. E assim sendo, a poesia ou a arte poética, não pode ser posta como mercadoria barata pois a muito lhe custou elaborá-la.

Selarei, venda murcha, meu comércio incompreendido,

pois jamais virão pedir-me, eu sei, o que de melhor se compôs na noite,

e não há oito contos. Já não vejo amadores de rosa.

Ó fim do parnasiano, começo da era difícil, a burguesia apodrece.

Aproveitem. A última

rosa desfolha-se.

(DRUMMOND; P.78 – última estrofe)

Essa ideia da mercantilização barata do fazer poético é também fruto do momentos vivido, que prossegue, historicamente, com maior ênfase até os dias atuais, isto é, do período em que Drummond escreveu tais poemas – 1943-1945 – até os dias contemporâneos nos quais a poesia não possui mais um Mecenas7 ou um Estado8 que lhe alicerce as condições objetivas de produção9.

O compromisso de produzir arte para além destas condições ficaria vetado ao artista. Em Adorno, ao que parece, há a defesa da ideia de um escritor – ainda que indissociavelmente preso a posição social a qual submete a si e a sua própria obra – compromissado com um fazer poético imanente e transcendental as questões particularizadas da politica social de sua época. Vejamos este trecho:

Esse pensamento, porém, a interpretação social da lírica, como aliás de todas as obras de arte, não pode portanto ter em mira, sem mediação, a assim chamada posição social ou a inserção social dos interesses das obras ou até de seus autores. Tem de estabelecer, em vez disso, como o todo de uma sociedade, tomada como unidade em si mesma contraditória, aparece na obra de arte; mostrar em que a obra de arte lhe obedece e em que a ultrapassa. O procedimento tem de ser, conforme a linguagem da filosofia, imanente. Conceitos sociais não devem ser trazidos de fora às composições líricas, mas sim devem surgir da rigorosa intuição delas mesmas.” (ADORNO; P.67)

Tal afirmativa é a valoração que de a arte, em essência, não poderia estar a serviço de uma ideologia, seja ela partidária ou não, conceito que pode ser admitido para a poesia de Drummond se considerarmos não seu caráter engajado, visto que incorreríamos no erro de exatamente apontar quais seriam os exatos traços de engajamento presentes nela e em que medida eles influenciariam sua leitura – tarefa muito pouco promissora se pensarmos em termos anacrônicos, mas sim sua busca por um caminho ao mesmo tempo novo e revelador.

…ideologia é inverdade, falsa consciência, mentira. Ela se manifesta no malogro das obras de arte, no que estas tem de falso em si mesmas, que deve ser apontado pela crítica. Mas dizer de grandes obras de arte , que tem sua essência no poder de configuração e apenas por isso são capazes de uma reconciliação tendencial das contradições fundamentais da existência real, que elas são ideologia, não é simplesmente fazer injustiça ao próprio teor de verdade dessas obras, é também falsear o conceito de ideologia.” (idem. P.68)

Considerações Finais

Postas as configurações até o presente expostas, ainda poderíamos afirmar que em ambos os poemas, há uma certa fusão do tempo existencial com o tempo social. Mesmo preso as condições oferecidas pela sociedade de seu tempo, o eu-lírico faz arte a medida que seu tempo existencial assim o permite.

Podemos considerar, portanto, que, em face do particular, a poesia de Drummond tomada aqui, conduz ao universal através do sentimento de incompletude e incompreensividade do estado das coisas presentes no mundo moderno, advindos de guerras, males e injustiças sociais, a qual estão sujeitos todos aqueles que puserem-se a refletir sobre o mundo e o espaço social em que vivem.

É possível propor um quadro de síntese dos elementos presentes nos poemas, a fim de que a melhor sistematização destes permita ver como as características do texto conduzem as intertextualidades contidas entre os poemas citados e a obra como um todo.

Síntese das características presentes nos poemas

Características

A flor e a náusea

O anúncio da rosa

Pessoa que fala

1° pessoa do sing.

Ex: [eu] vou de branco pela rua cinzenta.

1° pessoa do sing.

Ex: Autor da rosa, não me revelo, sou eu, quem sou?

Estrutura do versos

Verso livre

Verso livre, porém com algumas rimas internas e versos fixos

Tema do poema

A flor que nasce inesperadamente no asfalto

A “rosa”, como poesia, que é vendida

Significados do símbolo flor e/ou rosa

O inesperado

A poesia

Por fim cabe-nos a questão adorniana: a relação poética entre o eu-lírico e a sociedade seria tanto mais perfeita quanto mais velada fosse este tema na composição. A leitura da poesia de Drummond, em especial as aqui proferidas, permitiria-nos apontar menor ou maior valor, visto que, ainda que carregam marcas declaradamente de cunho político-social, são primordialmente expressões da alma humana em um fazer literário? É possível crer que sim, afinal a leitura que se faz delas é, em justa medida, a leitura a que couber ao leitor atento, aguçado e crítico para a complexidade de relações semânticas e estéticas entrelaçadas, escondidas e traduzidas nos versos drummondianos. Não se trata pois de simples – por assim dizer – aparelhamento da poesia em nome da causa política, mas sim a intensa expressão do homem político Drummond no fazer artístico poético que é pura expressão de sua própria arte com as palavras. Do particular ao universal, Drummond nos apresenta nessas obras diversas imagens esculturais, enredadas de beleza em verso, marcando assim sua obra na história dos grandes poetas modernos da literatura brasileira e internacional.

Referências:

ADORNO, Theodor Ludwig Wiesengrund. Notas de Literatura I. São Paulo: editora 34, 2003.

ANDRADE, Carlos Drummond de. A rosa do povo. 41° edição. Rio de Janeiro: Record, 2008.

Anexo 1 – Obras publicadas

Esta lista de obras encontra-se disponível no anexo do livro “A rosa do povo”, da editora Record (41° edição), bem como em outros demais livros publicados em recentes novas tiragens das obras de Drummond.

  1. Alguma Poesia (1930)

  2. Brejo das Almas (1934)

  3. Sentimento do Mundo (1940)

  4. José (1942)

  5. A Rosa do Povo (1945)

  6. Claro Enigma (1951)

  7. Fazendeiro do ar (1954)

  8. Quadrilha (1954)

  9. Viola de Bolso (1955)

  10. Lição de Coisas (1964)

  11. Boitempo (1968)

  12. A falta que ama (1968)

  13. Nudez (1968)

  14. As Impurezas do Branco (1973)

  15. Menino Antigo (Boitempo II) (1973)

  16. A Visita (1977)

  17. Discurso de Primavera (1977)

  18. Algumas Sombras (1977)

  19. O marginal clorindo gato (1978)

  20. Esquecer para Lembrar (Boitempo III) (1979)

  21. A Paixão Medida (1980)

  22. Caso do Vestido (1983)

  23. Corpo (1984)

  24. Amar se aprende amando (1985)

  25. Poesia Errante (1988)

  26. O Amor Natural (1992)

  27. Farewell (1996)

  28. Os ombros suportam o mundo(1935)

  29. Futebol a arte (1970)

Antologia poética

  1. A última pedra no meu caminho (1950)

  2. 50 poemas escolhidos pelo autor (1956)

  3. Antologia Poética (1962)

  4. Antologia Poética (1965)

  5. Seleta em Prosa e Verso (1971)

  6. Amor, Amores (1975)

  7. Carmina drummondiana (1982)

  8. Boitempo I e Boitempo II (1987)

  9. Minha morte (1987)

Livros Infantis

  1. O Elefante (1983)

  2. História de dois amores (1985)

  3. O pintinho (1988)

Prosa

  1. Confissões de Minas (1944)

  2. Contos de Aprendiz (1951)

  3. Passeios na Ilha (1952)

  4. Fala, amendoeira (1957)

  5. A bolsa & a vida (1962)

  6. Cadeira de balanço (1966)

  7. Caminhos de João Brandão (1970)

  8. O poder ultrajovem e mais 79 textos em prosa e verso (1972)

  9. De notícias & não-notícias faz-se a crônica (1974)

  10. Os dias lindos (1977)

  11. 70 historinhas (1978)

  12. Contos plausíveis (1981)

  13. Boca de luar (1984)

  14. O observador no escritório (1985)

  15. Tempo vida poesia (1986)

  16. Moça deitada na grama (1987)

  17. O avesso das coisas (1988)

  18. Auto-retrato e outras crônicas (1989)

  19. As histórias das muralhas (1989)

Anexo 2- Poemas

A flor e a náusea

Preso à minha classe e a algumas roupas,

vou de branco pela rua cinzenta.

Melancolias, mercadorias espreitam-me.

Devo seguir até o enjôo?

Posso, sem armas, revoltar-me?

Olhos sujos no relógio da torre:

Não, o tempo não chegou de completa justiça.

O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.

O tempo pobre, o poeta pobre

fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.

Sob a pele das palavras há cifras e códigos.

O sol consola os doentes e não os renova.

As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.

Vomitar esse tédio sobre a cidade.

Quarenta anos e nenhum problema

resolvido, sequer colocado.

Nenhuma carta escrita nem recebida.

Todos os homens voltam para casa.

Estão menos livres mas levam jornais

e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?

Tomei parte em muitos, outros escondi.

Alguns achei belos, foram publicados.

Crimes suaves, que ajudam a viver.

Ração diária de erro, distribuída em casa.

Os ferozes padeiros do mal.

Os ferozes leiteiros do mal.

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.

Ao menino de 1918 chamavam anarquista.

Porém meu ódio é o melhor de mim.

Com ele me salvo

e dou a poucos uma esperança mínima.

Uma flor nasceu na rua!

Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.

Uma flor ainda desbotada

ilude a polícia, rompe o asfalto.

Façam completo silêncio, paralisem os negócios,

garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.

Suas pétalas não se abrem.

Seu nome não está nos livros.

É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde

e lentamente passo a mão nessa forma insegura.

Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.

Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico

É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

Anúncio da rosa

Imenso trabalho nos custa a flor.

Por menos de oito contos vendê-la? Nunca.

Primavera não há mais doce, rosa tão meiga

onde abrirá? Não, cavalheiros, sede permeáveis

Uma só pétala resume auroras e pontilhismos,

sugere estâncias, diz que te amam, beijai a rosa,

ela é sete flores, qual mais fragrante, todas exóticas,

todas históricas, todas catárticas, todas patéticas.

Vede o caule,

traço indeciso.

Autor da rosa, não me revelo, sou eu, quem sou?

Deus me ajudara, mas ele é neutro, e mesmo duvido

que em outro mundo alguém se curve, filtre a paisagem,

pense uma rosa na pura ausência, no amplo vazio

Vinde, vinde,

olhai o cálice.

Por preço tão vil mas peça, como direi, aurilavrada,

não, é cruel existir em tempo assim filaucioso.

Injusto padecer exílio, pequenas eólicas cotidianas,

oferecer-vos alta mercancia estelar e sofrer vossa irrisão.

Rosa na roda,

rosa na máquina,

apenas rósea.

Selarei, venda murcha, meu comércio incompreendido,

pois jamais virão pedir-me, eu sei, o que de melhor se compôs na noite,

e não há oito contos. Já não vejo amadores de rosa.

Ó fim do parnasiano, começo da era difícil, a burguesia apodrece.

Aproveitem. A última

rosa desfolha-se.

1 Artigo escrito em Novembro de 2009, para departamento de Letras da Universidade Federal de São Paulo – Unifesp sob orientação do professor Marcus Lash da disciplina de Estudos Literários.

 

2 Graduando do curso de Letras da UNIFESP – Universidade Federal de São Paulo.

Email: felipehistory (arroba) gmail.com

3 Ver anexo 1 – lista de obras publicadas ao final deste artigo.

4 A Semana de Arte Moderna, também chamada simplesmente de Semana de 22, ocorreu em São Paulo no ano de 1922, de 11 a 18 de fevereiro, no Teatro Municipal. É considerada pela crítica como o marco do Modernismo no Brasil.

5 Em entrevista a um programa de televisão, realizada em 1980, Drummond queixa-se da conservadora crítica literária dos anos 20 que o classificava como “um doido que escrevia sobre pedras no meio do caminho”.

6 Entende-se na sociologia e em algumas áreas da filosofia moderna como “consciência de classe” o despertar de um grupo social ou de um indivíduo para seu verdadeiro poder no espaço social a qual está inserido. Segundo Marx, filosofo que cunhou o termo, o princípio da consciência de classe é o primeiro passo para a aquisição de autonomia e igualdade nas relações econômicas e sociais do trabalho.

7 Mecenas (Caius Maecenas) foi cidadão romano e de confiança do Imperador César Octaviano (Augustus). Durante toda sua vida, devotou esforços ao círculo literário famoso de sua época, que incluiu Horácio, Virgilio, e Propertius, patrocinando-os com amizade, bens materiais e proteção política. Por conta disso o termo mecenas e suas derivações – mecenato, mecenagem – tornou-se sinônimo de patrocínio a artistas e produtores artísticos de modo geral.

 

8 Durante toda a história da humanidade, o único período em que a arte não esteve ligada ao patrocínio do Estado ou a uma instância social reconhecidamente autorizada é a modernidade, na qual a arte se converteu em produto a ser negociado e vendido para as massas populares.

 

9 Ver também ADORNO, P. 69: “A idiossincrasia do espirito lírico contra a prepotência das coisas é uma forma de reação a coisificação do mundo, à dominação das mercadorias sobre os homens, que se propagou desde o inicio da Era Moderna e que, desde a Revolução Industrial, desdobrou-se em força dominante de vida.”