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Ensaios sobre o Amor e a Solidão

Soneto de Maior Amor

Maior amor nem mais estranho existe
Que o meu, que não sossega a coisa amada
E quando a sente alegre, fica triste
E se a vê descontente, dá risada.

E que só fica em paz se lhe resiste
O amado coração, e que se agrada
Mais da eterna aventura em que persiste
Que de uma vida mal aventurada.

Louco amor meu, que quando toca, fere
E quando fere vibra, mas prefere
Ferir a fenecer – e vive a esmo

Fiel à sua lei de cada instante
Desassombrado, doido, delirante
Numa paixão de tudo e de si mesmo.

Vinícius de Morais

Quando eu era pequeno eu queria ser bombeiro. Para ajudar as pessoas e andar sempre num carrão vermelho. Na adolescência eu queria mudar o mundo sendo professor. De uns anos para cá quero entender o que motiva e o que desmotiva, o que move e o que desmobiliza, o que impulsiona e o que frustra. Quero entender um pouco do pensamento humano para talvez entender o que é humanidade.

Numa quinta-feira qualquer de março de 2010, saído da biblioteca Alceu Amoroso, no bairro de Pinheiros em São Paulo, depois de ouvir um sábio Contador de Histórias de nome Ajax narrar trechos da trilogia Tebana, estava inquieto. Decidi-me por ir até a Livraria Cultura, no Conjunto Nacional, Avenida Paulista, para buscar um leitura que eu ainda não tinha bem certo o que de fato era.Perambulei por 4 horas. Tirei livros da estante, li parado nos corredores, li no chão, li sentado. Entre tantos livros, encontrei um título famoso da obra do Flávio Gikovate: “Ensaios sobre o Amor e a Solidão”. Era o que eu precisava. Desde então é minha obra de cabeceira.Vou ler alguns trechos que julguei interessantes. Gravação amadora, só pelo conteúdo. Primeiras páginas do capítulo 1. Clique nas imagens para ampliar.

 

 

 

 

 

 

 

 

Inquiribilidade em elóquio afetivo

medo e ousadia;
coragem e vertigem;
sabendo eu da sua parte,
a tragédia, vida, em arte,
quis mais da metade
que saber afinidade.

Pena minha ou descuido,
nascendo sem pedir,
morrendo sem querer,
tecia na ilusão do hoje
as memórias do amanhã.

Agora faço porém
Sem força, além.
Deixo o brado brando
e passo ao brado bravo:
será da nossa sorte, engenho ou verdade,
unir prosa e verso, minha e tua vontade?

O Sonho de Jacronharo

Jacronharo, indígena líder na nação Tupi, tinha um sonho.

Jacronharo foi entitulado líder da nação Tupi para combater os portugueses, que já haviam ocupado nosso território e capturado índios que se tornaram escravos para o trabalho de saque iniciado pelos portugueses.

O exército montado por Jacronharo derrota os invasores, mas ao invés de serem exterminados, terem suas mulheres estupradas, os homens mortos e os velhos humilhados, tiveram suas vidas preservadas e Jacronharo definiu que eles poderiam habitar um bom pedaço daquela terra e viver ali em paz. Ele até distribui sementes de milho e mandioca para que os portugueses pudessem plantar e criar suas famílias naquele lugar.

Jacronharo acreditava que a Pindorama era muito grande e bondosa, que todos poderiam viver naquelas terras, que todos teriam seus espaços e que o alimento seria farto e suficiente para as pessoas. O sonho de Jacronharo é esse, um Brasil onde as pessoas podem conviver onde as coisas são possíveis.

No entanto passaram os anos e os portugueses não entenderam o sonho de Jacronharo e começaram o projeto de extermínio das vidas e das culturas que habitavam nosso país.

Por que os portugueses erraram? O que eles queriam?

Uma gigante nuvem de trevas e escuridão cobriu o planeta e até hoje vivemos sobre essas trevas.

Neste vídeo, Mestre Lumumba conta a história e faz uma refexão sobre o sonho de Jacronharo no século XXI.

Alguns Pontos de Cultura, a partir da Teia 2010 de Fortaleza, se organizaram entorno dessa idéia do sonho de Jacronharo e criaram a Rede Jacronharo, com ações em rede de reconhecimento e fomento, buscando aproximar os pontos e transformando essa proximidade em movimento social. Permitindo que brancos, pretos e índios – que ainda não estão presentes – possam viver, trocar cultura e conhecimento, buscando a transformação individual e coletiva de todos. Tentando entender o maior gargalo dos pontos de cultura – a articulação em rede – para dar um novo passo para o programa Cultura Viva.

O Sexto Lobo

Um dos textos mais emblemáticos da obra de Sigmund Freud, inicialmente publicado em “A História de uma Neurose Infantil” e depois reeditado em “Obras Completa”, de título “O Homem dos Lobos”  traz uma curiosa descrição sobre o caso de Sergei Pankejeff, um paciente aristocrata russo que certa vez teve um sonho com uma matilha de lobos brancos em cima de uma árvore.

Das anotações de Freud:

Sonhei que era noite e que eu estava deitado na cama. (Meu leito tem o pé da cama voltado para a janela: em frente da janela havia uma fileira de velhas nogueiras. Sei que era inverno quando tive o sonho, e de noite.) De repente, a janela abriu-se sozinha e fiquei aterrorizado ao ver que alguns lobos brancos estavam sentados na grande nogueira em frente da janela. Havia seis ou sete deles. Os lobos eram muito brancos e pareciam-se mais com raposas ou cães pastores, pois tinham caudas grandes, como as raposas, e orelhas empinadas, como cães quando prestam atenção a algo. Com grande terror, evidentemente de ser comido pelos lobos, gritei e acordei. Minha babá correu até minha cama, para ver o que me havia acontecido. Levou muito tempo até que me convencesse de que fora apenas um sonho; tivera uma imagem tão clara e vívida da janela a abrir-se e dos lobos sentados na árvore. Por fim acalmei-me, senti-me como se houvesse escapado de algum perigo e voltei a dormir.” (Freud 1918)

Confesso que nunca pensei muito sobre esse caso, apesar de ter achado interessante quando li há uns 5 anos. Recentemente perguntei ao Contardo Calligaris sobre referenciais e uma melhor definição para o que ele costuma chamar de “comportamento vulgar” ou “vulgaridade de manada” e ele recomendou-me a leitura de “Clínica do Social: Ensaios”, publicado pela Editora Escuta, no qual há um texto dele intitulado “A Sedução Totalitária” que apontaria dizeres sobre isso. No entanto, ao deparar-me com o livro, eis que tenho uma memória recuperada: está na contra capa os seguintes dizeres:

“Um dos pacientes mais famosos de Freud passou a ser conhecido como o ‘Homem dos Lobos’, por um sonho, também famoso, no qual – segundo o paciente refere – se trata de ‘seis ou sete lobos’. O paciente desenhou a cena do sonho, mas no desenho só apareceram cinco lobos.

É legítimo se perguntar então onde passaram o sexto e o setimo lobos. E mais especificamente, escolhendo o sexto, fazer dele o emblema de algo que as vezes possa – no cotidiano da prática psicanalítica – vir a ser desconhecido. De que se trata?”

Essa pergunta me chamou muita atenção e sinto que não há uma resposta única para ela, mas está posto para mim que o estudo do clínico de uma sociedade , conforme propõe a obra citada e o trecho provocador, é sem dúvida um fator preponderante no entendimento da psique de um povo sob um território. Isto é, para além dos indivíduos existe uma soma (seria soma? ou multiplas camadas de influência?) de subjetividades que alteram o comportamento coletivo de um grupo. E lançar luzes sobre isso, de uma perspectiva interna, é também tentar a terapia ou a análise da sociedade ou de um grupo ao qual se está inserido.

Blogosfera das boas canções populares

Se tem algo que anima e enreda uma narrativa é sem dúvida uma canção popular bem colocada. Mas como encontrar coisas bacanas? Tenho ouvido muitos novos e velhos artistas por aí, alguns em viagens, nas ruas, em praças, em eventos do projeto de Pontos de Cultura do Ministério da Cultura, coisas bastante surpreendentes e totalmente fora dos circuitos comerciais de música. Daí que também tenho pesquisado na internet e achei quatro excelentes referências para baixar sons sensacionais e descobrir um universo novo incrível de canções populares. Segue abaixo:

 

 

 

 

 

Fazendo Arte com Peanuts

Os episódios do Peanuts (Minduim, Charlie Brown, Snoopy), criados e desenvolvidos por Charles Schulz, percorreram e enredaram muito do meu imaginário de criança. Entre tantos episódios, nunca vou esquecer deste, intitulado “Fazendo Arte”. É uma verdadeira aula de como a escola cria ambientes ora hostis para uma simples criança, ora totalmente engraçados do ponto de vista da esquisofrenia do ambiente.

Um outro episódio que me traz lembranças muito divertidas é este no qual Charlie Brown e Patty Pimentinha estão juntos na mesma sala de aulas.

 

As perguntas que me matam…

Sketch para fazer a dois.

 

E por falar em sentimentos, como andam os teus? 

Quem quer saber? 

É proibido perguntar?
 

Foi isso que eu quis saber?
 

Não vai responder?
 

Está com pressa? 

Você se lembra do que eu perguntei? 

Por que você me pergunta isso? 

Já sei, você está apaixonado, não é? 

Quem te disse isso? 

E precisa alguém dizer? 

Então o que é estar apaixonado? 

Você é que está e não sabe dizer? 

Você também não sabe responder? 

Eu tenho cara de quem não sabe? 

Você fica ofendida de eu perguntar se você não sabe responder? 

Por que você está se fazendo de bobo hoje? 

Por que você quer tanto saber disso? 

Eu não posso perguntar sobre os seus sentimentos? 

Quem quer saber? 

Vamos começar tudo de novo? 

Podemos começar tudo de velho? 

Você é engraçadinho assim e eu nunca percebi? 

Você nunca percebeu? 

Percebeu o que? 

Quer deixar pra lá? 

Deixar o que pra lá? 

Você sempre foi desentendida assim e eu nunca percebi? 

Você nunca percebeu? 

Percebeu o que? Kkkkk 

Humm, acho que você percebeu sim, né? 

Eu tinha que perceber? 

Então não está na minha cara? 

Posso responder com uma pergunta? 

Responder o que? 

Você não me fez uma pergunta? 

Uma? 

Seja como for, posso então responder com uma pergunta? 

Mais uma pergunta? 

No começo da conversa, você não me perguntou uma coisa? 

Como andam teus sentimentos? 

Ainda quer que eu responda? 

Uma pergunta dessas não merece uma resposta? 

Eu disse que não merece resposta? 

Você vai parar de enrolar e responder? 

Você vai me deixar responder? 

Eu estou tapando sua boca? 

Quer casar comigo? 

Quando? kkk

Dá pra ser hoje? 

Cadê o Padre? 

Tem que ser no religioso? 

Você está pensando que eu sou o que? 

Você é Santa? 

Você é sempre grosso? 

Eu te xinguei? 

Precisa xingar para ser grosso? 

Foi isso que eu perguntei? 

Faz aquela outra pergunta de novo? 

Qual pergunta? 

Já esqueceu? 

Quer casar comigo? 

Eu não, você só sabe perguntar. 

FIM.

Antífona – Zé Modesto

Canção bonita, da terra, popular. De cultura de um outro tempo, de uma outra lógica. Para enredar os caminhos do Vale do Paraíba.

 

Nossa Senhora, Mãe Preta do Paraíba
Dá tua bênção pra gente ir cantando em frente
E pela frente põe gente em nosso caminho
Pra nóis cantá e ter sempre alguém ouvindo

Nossa Senhora vigia
Esparrama o teu amor
Pra que na vida a poesia
Nos seja causa maior
Não seja a raspa do tempo
Que ele voa ligeirinho
Seja a poesia o alimento
A sustança no caminho

Cuida que haja o afago
E todo amor que ele tem
Que os corações que andam vagos
Encontrem logo o seu bem
Nessa vida sem carinho
O nosso destino é vão
Que é que na vida sozinho
Tem feliz seu coração?

Sinhá Preta seja abrigo
Nas horas de precisão
Que a gente saia do umbigo
E viva mais comunhão
Batendo menos cabeças
Fica leve a nossa cruz
Tua bênção Sinhá nas encrenca
Tua glória nos dias de luz!

 

Viagem a Porto Alegre – F & M

Os fatos, descrições, situações, lembranças e sensações aqui narrados são relatos de uma viagem feita por duas pessoas que sairam de São Paulo e ficaram 6 dias em Porto Alegre. Nomes foram omitidos e algumas passagens suprimidas para não expor em demasia a intimidade de quem esteve presente. 

18/02/2010 8:00 – F.

Bem, hoje é o dia da viagem a Porto Alegre. Espero que as coisas aconteçam como previsto. Vamos embarcar as 15:30. É hora de preparar o almoço, daqui a pouco tenho de buscar a M. na estação Tucuruvi.
11:00 – F.
Cheguei um pouco cedo ao metrô e agora me bateu uma vontade enorme de ir ao banheiro. Esta estação, por incompetencia do arquiteto que a projetou, não possui banheiros públicos. Vou ter de procurar um bar ou algum comércio em que possa usar o sanitário. Estou com sono. Dormi poucas horas esta noite me preparando para viagem.
11:40 – F.
Tive de ir até a estação tietê para usar o banheiro. A M. está bem ali e trouxe uma mala pequena. Acho que ela vai ter problemas com roupas. Let’s go!
12h25 – M.
Cheguei no ap de F.. Ele preparou uma refeição para nós: salada de grão de bico com palmito, champignon, tomates, azeitona e salsinha. Estava razoável. Havia também berinjela com mussarela. Gostosa. Comemos um pouco, etc. Depois partimos, após entregar a sobra da comida para a porteira. Caminhamos um tanto até o ponto de ônibus para pegar o ônibus que iria nos levar até o aeroporto.
14h16 – M.
Chegamos no aeroporto. Procuramos a nossa cia aérea, fizemos check-in e aguardamos na sala de embarque. Um pequeno atraso. Entramos na (n)ave. Sentei-me na janela. O tempo era nublado e chuviscos tímidos caíam. O avião ligou o motor. Esperei ansiosamente que as rodas do avião deslizassem pelo solo a ponto de subir. E foi indo, foi indo, foi indo… Até o momento que pegou velocidade e foi subindo, ficando cada vez mais alto, a ponto de o meu estômago sentir espasmos de uma pequena emoção que eu não soube identificar. F. era calmo, já havia passado por aquilo algumas vezes, então nada foi inusitado.
Tempo suspenso – M.
Não havia relógios que pudessem nos indicar as horas. A relatividade do tempo realmente existe. Se bem que realidade é questão de… sei lá. Não sabíamos exatamente há quanto tempo estávamos no avião, mas parecia que o tempo ainda permanecia lento. Até que a voz diz: dentro de instantes pousaremos em Porto Alegre.
17h44 – M.
Desembarcamos. Aguardei com F. sua bagagem passar. Pegamos sua mala. Encontramos R., uma pessoa conhecida de anos. Não somente conhecida, mas uma amiga, apesar de todas as complexidades da nossa relação no passado. Pegamos uma lotação gratuita com destino à estação de trem Aeroporto. Descemos na estação Mercado, localizada no centro de Porto Alegre. R. atualmente mora sozinha num apartamento minúsculo localizado na rua Vigário José Inácio, perto de tudo aqui na cidade. Porém essas ruas movimentadas e clima acinzentado me trazem lembranças da minha cidade: São Paulo: tudo o que eu queria esquecer.
(Interrupção do diário…)13h30 – 21/02/2010 – Domingo – M.

Restam alguns minutos antes do esgotamento da bateria do laptop. A tomada mais próxima está sendo ocupada por um outro aparelho que também tem a sua utilidade indispensável.

Estamos aqui no “apartamento” de R. . Hoje pela manhã ao sair na rua os termômetros marcavam 40 graus. Temo que aumente mais. Minha pressão é baixa e meu ânimo quase morto. Se estivesse morto completamente certamente eu não estaria aqui nesta máquina escrevendo essas palavras.

F. saiu para comprar água, pois a da torneira é de fonte desconfiável. De repente há alguma virose se alastrando pelos canos, nunca se sabe. Então é melhor pagar para hidratar. E como necessitamos disso!

R. assiste a algum seriado em seu computador, enquanto I. está deitada na cama lendo um livro. O ventilador está ligado, mas não resolve. E a porta da casa não pode permanecer aberta por motivos de conveniência, embora eu creia que neste andar do prédio não haja ninguém. Sei que há, mas é como se não houvesse…

O calor nos impede de tomar qualquer atitude. Há parques dispostos na cidade nos aguardando. Há tantas e tantas coisas, mas pensamos apenas em estabelecimentos que tenham ar condicionado. A condição do bem-estar num verão abrasador é a artificialidade da temperatura. Vivemos nossas vidas artificiais e superficiais e práticas.

Até a minha respiração é diferente. Minha cabeça não para de latejar. Temo que isso estrague o resto de humor que poderia me restar para aproveitar ao resto do dia. O único e último domingo em Porto Alegre…

Haverá ainda a segunda e terça para aproveitarmos, mas em se tratando de uma cidade metropolitana…

Eu gostaria de poder lavar as minhas roupas sujas, mas não há sabão em pó sequer sabonete para esfregá-las. Mas o sol é tão forte que eu acredito que as roupas secariam em questão de minutos. Talvez amanhã eu faça isso. Como disse F.: terei problemas com roupas.

F. acabou de chegar e me ofereceu uma água com gás. Tomei.

Havia um plano: ir para o parque da Redenção. Mas o sol é tanto que evitaremos ao máximo nos expor.

19/02/2010 – retomando a escrita. F.11:29

Bem, hoje é sexta-feira e acordamos “tarde”. Na verdade hoje é domingo, pé-de-cachimbo (21/02/2010), mas como eu escrevo como se estivesse revivendo o já vivido, vou narrar a partir de onde (quase) parei.

Acordamos tarde. Tarde o suficiente para eu já estar pilhado com uma porção de coisas imaginárias. Sinto-me atrasado para algo, para algum compromisso, para alguma reunião da qual se eu perder tudo vai ruir e vou me dar mal. A M. está se aprontando para sairmos. Vamos ao Mercado Público passear e, se possível, usar a internet.

A noite de ontem foi de descobertas. Entre conversas e canções sussuradas no escuro mentiras sinceras que me interessavam deixaram de ser tabu e a franqueza ganhou vez na crônica. Talvez isso afete meu humor. Positivamente? Hum… é possível… ou não. O fato é que agora sempre que eu lembrar da viagem de verão a Porto Alegre de 2010 vou me recordar disso com um certo prazer especial. A M. é engraçada, sempre que começo uma conversa a respeito “nós” ela fica receosa sobre o que está por vir, mas no fim acaba curtindo.


17h44 – M. (Domingo ainda)

Chegamos em casa após um passeio pelo parque da Redenção. Pois bem… Antes de tudo…

Decidimos encarar o sol. Pegamos o ônibus com destino ao parque da Redenção. Ou parque Farroupilha. Durante o trajeto percebemos que o tempo havia fechado! Que maravilha! Após o calor insuportável que fez, pelo menos por alguns intantes estaríamos aliviados.
Descemos do ônibus. Fomos comer: lancheria do parque: que lugar ótimo e barato. Quanta comida. Como fomos bem servidos. Gaúcho é muito bem alimentado, eu constato. Ao final das refeições eles sempre perguntam: servidos? Muito bem servidos, embora eu não consiga comer toda a comida do prato por puro exagero de querer enchê-lo por falsa expectativa estomacal. Pois bem. As meninas pedem lanche: esses cheese alguma coisa e bauru (coisa típica paulista) e que espanto: os lanches são do tamanho do prato! Muita, muita fartura. Fácil atingir a obesidade. Aqui eu seria saudável e rechonchuda. Durante a refeição, a chuva começa a cair. Mas logo passa. Porém os passantes do parque diminuem. As nativas daqui dizem que o movimento era fraco. E as barraquinhas também estavam encerrando suas vendas, por conta da chuva que afastou a clientela e/ou os olhantes. Como a natureza é. Se faz sol, as pessoas se isolam. Se chove, as pessoas se isolam. Tudo é motivo para o isolamento. Quanto paradoxo numa sociedade na qual as pessoas precisam de aproximação verdadeira. Não só o tipo da aproximação diária e estressante do cotidiano.

No parque, sentamos num banco. Ficamos observando todos os -na maioria jovens- passantes. Suas excentricidades e clichêssismos. Invento termos, sei. Os jovens com seus galões de vinho. Os jovens conversando sobre suas aproximações -de cunho sexual- com outros jovens. Os jovens e seus estilos, seus grupos, seus nichos. Os jovens.

Bebi muito chimarrão. Me viciarei? Tudo bem, se isso acontecer. Já tenho os recursos e sei como se prepara a coisa.

Os chuviscos caíam, mas sem muito incômodo. Durante o trajeto os “amigos” pensam em fazer maldade comigo. Por que? Sou sempre a vítima. Sempre. Quando serei vilã? E nem consigo. Já sei: a maldade só existe por distração. Acho que o tédio é o grande causador da violência no mundo.

Fomos a um mini zoo. Mini, mini, mini. Só havia umas espécies de aves: papagaio e araras e macaquinhos. Não gostei dos cativeiros nos quais os animais estavam. Eram todos tão vazios e escuros. Sei que eles devem ser bem cuidados. Mas me deixa muito angustiada vê-los naquela condição de aprisionameto. É preferível viver uma vida livre e perigosa a viver uma vida presa e sem perigos? O homem, de fato, é a única espécie que enclausura as outras, inclusive a sua própria. O homem está destruindo o mundo e a si mesmo, todos os dias. A destruição humana aconteceu no exato momento em que houve a concepção da razão. Como a vida: já nascemos predestinados a morte, independente de quaisquer crenças que possam existir que nos digam que há uma vida além-vida. Será? Não serei tão prepotente a ponto de acreditar que não, somos os únicos. Somos os únicos capazes de decifrar o código da vida. Mas essa lacuna impreenchível da existência não é capaz de ser suprida com ficções salvadoras de almas, embora milhões de pessoas espalhadas pelo mundo tenham sua fé potente.

18h02

O horário de verão acabou ontem. A noite já vem chegando tímida. Temos ainda mais dois dias pela frente, excluindo este. Gosto muito de Porto Alegre. Me sinto estranhamente acolhida pela cidade. Algo que não sinto em São Paulo.

Olhei ao redor e F. e R. estão repousando. Acho que R. dorme, pois sua respiração é pesada, quase um ronco. Ah, me sinto entediada. Mas é um tipo de tédio ocasionado pela falta de perspectiva para as próximas horas. Quero aproveitar detalhes de coisas de modo que o tempo passe como se deve passar e que eu não o sinta.

Queria fumar um cigarro agora para distrair. Mas eu não gosto de cigarros. Cigarros são o tipo de companhia má que as mães não querem que os filhos tenham.

AH!

19:01 – 21/02/2010 – F.

No quarto escuro a luz da tela me ilumina e inspira. Chove lá fora e aqui dentro (de mim) o clima ainda é de sol. O sol que faz crescer idéias, brotar novas folhas, surgir novas fontes de vida.

Ainda a pouco tirei um cochilo. O calor escaldante deixa a gente meio lerdo e com sono. Cochilos revitalizantes ajudam mais que cafeína. Durante a fechada de olho sonhei que eu não sabia quem eu era e onde eu estava. Seria um presságio de que as coisas andam meio caóticas?

Voltamos do parque da redenção não faz nem uma hora. Lugar bacana… Muitos jovens, guris e gurias perdidos ou achados. Muito verde, muita tranquilidade. E no meio disso, eis que surge uma trupe de promoters da Lacta S.A., vestidos como idiotas, uns de chapéu, outros apenas com a farda triste e esquisita feita por um designer qualquer, distribuindo chocolates para os passantes. Agora parece que a moda é essa: quando você quer ir ao parque se divertir para fugir da lavagem cerebral de marketing que faz a televisão, o rádio e a internet, eles vão até lá te convencer que o produto deles é gostoso e que você precisa tê-lo. As meninas gostaram de ganhar um chocolatinho free.

19h24 – M.

Tédio corrosivo. Sinto-me um pouco mal-humorada. F. fala no meu ouvido e sinto impulsos de chutá-lo. Que saco. Serei misantropa, é mais conveniente para mim.
Não há muito o que fazer mais. A noite chegou. A R. é outra que fica se entretendo com jogos de computador para distrair. Mas que bela anfitriã. Como oscilo.F. tem humores de senilidade às vezes.R. tem humores de nada. A coitada parece nem estar aqui.Onde estou?Gostaria de estar sozinha entretida comigo mesma e experimentando todos os ilimites da minha própria extravagância sem ter de pensar no tempo. Por que isso me afeta? Por que não consigo aproveitar o tempo com eles? Porque isso exige, no mínimo, uma sintonia: que não há, no momento.

Já escureceu. E é domingo. As coisas pelo centro da cidade estão fechadas. E não quero pegar transporte público para me locomover mais. Já gastei o suficiente. E mais que o suficiente.

Tenho, sim, um grande problema com o tédio. Seria isso algum aspecto astral? Serei mesmo um ser em constante movimento? Em busca sempre de informações, quaisquer que sejam? Se isso me falta, então, falta algo? Sei lá. Mas sem autoanálises, tampouco alternálises, eu devia descrever os aspectos do tempo e do ambiente.

Hoje acordei pela manhã melequenta de suor. Comi um pão com patê com suco de uva e saí para encontrar F. que estava perambulando pelo centro de Porto Alegre atrás de um ambiente que possibilitasse o acesso à internet.

Ah, já escrevi sobre isso.

Estou fortemente entediada. Que farei? Como suportar? Acho que se eu sofresse uma tortura seria mais suportável que isso. Ao menos em tortura eu estarei em movimento. Mas estou em movimento também agora.

Essa maquininha apoiada sobre minhas pernas está quente. Derreterei? Ho Ho. As horas estão passando muito, muito lentamente. Seria isso um aspecto da normatização dos ponteiros?

Vou tentar a vacinação do tédio: injetarei ele em minhas veias para que eu não seja mais acometida pela sua doença.


Voltou a chover. VOLTOU A CHOVER. Voltou voltou voltou. O retorno das coisas, e da chuva.

19:43 – F.

Essa menina é um caso sério. Deseja ocupar cada segundo do seu tempo com atividades empolgantes com medo de passar na vida como espectadora e não como protagonista, mas, em contrapartida, luta, as vezes, contra suas próprias vontades e condições objetivas.

Eu tento mostrar algumas alternativas válidas a ela, mas não posso dizer qual é o caminho a ser seguido pois as escolhas são dela e não minhas. Tédio é um estado de espírito e engana-se aquele que o concebe como pura e simplesmente azar do acaso. Se ela escolheu que o tédio é a razão de todos os males, que culpa tem aqueles que, sob o mesmo teto, lhe prezam fiel companhia? Se não há coisas a fazer, ótimo, porque muitos são aqueles que desejam ardetemente ter tempo livre para respirar, relaxar e, sobretudo, PENSAR. Pensar é o que as pessoas menos fazem em seu cotidiano.

Digo pensar criticamente. Não que essa figura, a qual chamo carinhosamente de Nêga as vezes, não pense criticamente quase a todo instante, mas acho que isso também causa um certo desgaste, uma certa fadiga, um certo conflito interno chato de aguentar. Daí a culpar o sagrado tédio, pai do ócio criativo, das razões da insatisfação.

Voltemos a saga. Aproveitemos que ela está a ler mitos gregos, bebendo uma cerveja e fumando um cigarro. (Parece que encontrou, por fim ainda que temporariamente, uma coisa para ocupar os neurônios em constante agitação.)

Voltemos mais ainda. Voltemos a sábado, dia 20. Lembro-me de ter acordado por volta das 7:20, enquanto a M. ainda dormia. Sempre acabo acordando mais cedo que todos. Ruim isso. Eu ficaria contente de poder dormir relaxadamente até umas 10:00, pelo menos, mas assim que a alvorada aparece o meu relógio biológico aciona todos os dispositivos de alerta e de prontidão, me deixando pronto para fazer qualquer coisa.

21h03 – M.Os pais da anfitriã estão na casa e trouxeram alguns fragmentos de móveis e outras coisas. F. está ajudando ali no emparafusamento do móvel de colocar na cozinha. Todos eles estão suados.Vejo um avião cortando o horizonte. Daqui a dois dias estaremos dentro de um com destino a São Paulo. Me sinto menos entediada agora com toda essa observação.O F. e não entende que eu penso, a todo instante, independente da movimentação. Seja em tédio ou agitação, meu cérebro não para. Nunca para. E que tédio não favorece o meu pensamento. Enfim, não estou mais entediada. Por enquanto. Se aproxima a hora do sono e isso me conforta.F. e R. são muito terrenos. Acho que escolhi este rapaz para vir comigo por dedo intuitivo.

Como ele [pai de R., S.] está suado. Observo uma gota de suor caindo da pontinha de seu mamilo.

Houve um momento ontem muito bacana ontem, sábado, à noite. Uma circunstância na qual estávamos todos nós -os protagonistas: eu, F., R. e I. – num churrasco com os amigos das meninas. Foi interessante. Muita conversa e análises linguistas sobre o sotaque deles. E gravações de diálogos, também.

Ai, ai… A reticência exprime tanta coisa. Igual ao silêncio.

Acho que vou querer morar em Porto Alegre algum dia. Não que eu não queira, ou nunca tivesse querido, mas não quero abandonar as minhas atividades em SP pra vir dar as caras por aqui. Preciso tentar me inserir num contexto. Quem sabe estudos posteriores à gradução?

A mãe de R. acaba de dizer: “rolou até chimarrão aqui, néam? Que chique!” Confesso que tomei muito chimarrão nesses dias.

22/02/2010 – F.

Hey, estamos aqui novamente. Segunda-feira é sempre um dia odiado pela maioria das pessoas comuns da faixa intitulada “economicamente ativa” pois as obrigações com trabalho e compromissos da rotina na cidade tomam tempo e sossego e a segunda é justo o dia que precede a calmaria e a tranquilidade do final de semana. Nesta nossa viagem, essa segunda é uma segunda sem conotação alguma de chatice. Estamos livres para fazermos o que quisermos. Dormir o dia todo, sair o dia todo, comermos o que quisermos, no momento em que quisermos…

Hoje, de modo peculiar, consegui dormir para além das 7:00/8:00 da manhã! Acordei já eram umas 9:50. Foi ótimo. Sinto-me descansado e bem disposto. A cada dia que passa tenho gostado mais da viagem. Na noite de ontem por exemplo, após os pais da R. irem embora, começamos uma conversa muito enriquecedora em termos de entendimento da complexidade das relações humanas. Não recordo com exatidão qual foi a chave desencadeadora do papo. Acho que foram as perguntas sobre o amor e a admiração que a M. fez (F., você me admira? Sim, M., eu te admiro em muitos aspectos). Chegamos num impasse: amor reque admiração e admiração não requer necessariamente amor? Simple assim? Nem tanto…

Depois de engatado o papo – pela M. (sempre a M. sente uns momentos bem alto astrais para começar bons papos) – começamos todos a conversar sobre as implicações que os relacionamentos passados e presentes podem ou não ter na evolução de nossas vidas. Papo bem massa. Aí a M. fez uma pergunta meio “ousada” (a palavra não é ousada, mas eu não estou encontrando o adjetivo certo agora) para a R. e eu fiquei meio puto porque achei invasão de privacidade e a gente deu uma mini tretadinha, que passou num instante. É que eu esqueço que o contato da M. e da R. é bem anterior ao meu então talvez certas “formalidades” devam realmente ser deixadas de lado. Tenho de parar de pegar no pé dela. Confesso. É que eu me sinto responsável por ela, mais tutor do que qualquer outra coisa, e isso me faz ser meio seco as vezes. Uma pena pois que se fode sempre sou eu. Também estava curioso para perguntar a mesma coisa, no mesmo instante, então parece que ela (M.) tinha lido meu pensamento (As vezes ela faz isso, ela sabe o que eu estou pensando, mas acho que nesse caso ela só estava curiosa como eu).

R. não viu problemas em responder e ficamos uns 20 ou 30 minutos, em silencio, só ouvindo-a contar sobre os momentos mais intensos e conflituosos de sua vida, já passada. Ela narrou com detalhes instantes bastantes tortuosos, mas que a fizeram hoje um outro alguém muito melhor. A R. é mesmo uma figura. Talvez eu não gostasse dela se a conhecesse há dois ou três anos passados, pois sempre acho que exageros (ainda que inevitavelmente carmicos) não são dignos de complacência, mas conhecê-la agora, nesta condição de hospede e amigo da amiga me fará tê-la em excelente recordação.

Bem, depois de acordar, tomei banho, foi ao mercado público usar a rede (como temos feito quase todos os dias). M. me encontrou lá logo depois. Fizemos o que tinha de ser feito e saimos para almoçar. Agora, já bem alimentados, estamos indo ao Ponto de Cultura Minuano encontrar com o Fb., um amigo meu.

16h53 – M.

Me sinto num clima de trabalho. No momento estou num não-sei-o-que-lá de Software com pessoas estranhas entretidas em suas máquinas. Me sinto bastante desconfortável. To utilizando um cabinho de internet para me comunicar com amigos em tempo instantâneo. O dia passou bem depressa, e olha que nem acordamos tarde demais.

F. me largou para ver uma sala com coisas que eu esqueci. Tá lá há um tempo considerável. Tem uma mulher loira pouco acima da meia idade, pela aparência, trajando uma blusa preta e jeans, cabelos presos num rabo, olhos profundamente azuis. Mas ela tem cara de pouco humor. Parece rígida. Pelo reflexo do monitor eu peguei ela olhando pra tela. Rá, safada.

Aqui eles chegaram, agora. Sinto fome.

São 17h08 de uma segunda-feira.

21:16 – F.
Estou cansado e minha inteligencia está reduzida. Não dá pra escrever agora.

23 de fevereiro. 19H30 – M.

F. disse que a inteligência dele está reduzida, pois ouviu ontem uma reportagem no jornal nacional dizendo que temperaturas que ultrapassam os 30 graus dificultam o “entedimento” do cidadão.

19:38 – F.
Bem, hoje é o último dia de nossa estada em Porto Alegre. Fizemos muitas coisas, mas sinto como se o tempo tivesse passado rápido demais e ainda tivessem coisas interessantes a serem feitas. O tempo passa sempre muito rápido quando há prazer no cotidiano das coisas vividas.

Estou sentado ouvindo as meninas conversando (R. e M.). Beatles ao fundo. “I dont care…”
O dia já foi. A noite é chegada e também será a última dessa temporada.

Bem, vamos a algumas passagens e impressões do dia. Passamos a manhã pelo centro: mercadão público e apartamento da R.. A I. saiu assim que R. foi trabalhar. Sim, hoje também é o segundo dia de “retorno ao trabalho” dela (R.). Decidimos que iriamos almoçar, novamente, na lancheria do parque. Lá a comida é BB. Boa e Barata. Fomos.

O ônibus saiu do terminal e em menos de dez minutos estavamos no nosso destino. O clima está quente, mas não tanto quanto os escaldantes 40 graus de domingo passado. O céu nublado e o cheiro de chuva que o vento traz nos avisa que talvez daqui a algumas horas as ruas estarão molhadas.

Atravesso a rua e observo um cão a coçar a cabeça. Na calçada, relativamente movimentada, um senhor bem idoso, de óculos escuros, caminha a passos tão lentos que quase o vejo quadro a quadro. Meus pensamentos vão longe. O retorno a agitação do trabalho, os contatos, os amigos deixados na grande cidade, o apartamento, a família, o cão de estimação que não tenho e que nunca vou ter. Os temas se ligam uns aos outros inesperadamente em minha memória.

Seguro o prato com a mão esquerda e olho as opções do buffet. Vou comer talharim ao sugo, filé empanado e alguma salada. A M. está esperando na mesa. A lancheria está cheia, as mesas disputadas, então, achamos por bem um ficar e esperar enquanto o outro se servia. Ela já está comendo. Eu comecei esperando.

Comemos em silencio. Pensando. Ontem a noite a M. inventou um jogo com cartas. Começo a me lembrar disso. O jogo iniciava-se assim: o baralho era misturado e cortado pela pessoa que deveria ter a sorte lida pelo outro. Primeiro eu tive de vê-la embaralhando as cartas, depois cortei e do segundo monte, do qual retirei 4 cartas. A primeira, segundo a M., era a carta do amor. A segunda a da familia. A terceira a das relações sociais e a última a do campo profissional. Saiu: um 6 de ouro, um 4 de paus, 6 de ouro e 9 de ouro. 3 de quatro foram naipes de ouro! A leitura da M.: serei feliz no amor, pois o número 6 representa a estrela de davi. E o naipe de ouro é símbolo de sucesso e fartura. O 4 de paus mostra que tenho um situação familiar mal resolvida. Talvez com uma figura ausente. Por ser uma carta que sucede a carta do campo do amor, ela pode representar também as dificuldades que serão vividas no entendimento e no conforto das relações afetivas. O 6 de ouro mostra que tenho excelentes relações sociais e que estas influenciarão muito meu futuro profissional, afinal, 9 de ouro é a prova de que serei o sujeito mais bem sucedido do que o meu próprio desejo possa imaginar.

As cartas da M. foram: dama de copas, 4 de paus, 6 de ouro e 10 copas. Minha leitura aponta para o seguinte prognótico: no campo afetivo uma dama de copas representa um figura feminina que a fez/fará descobrir e sentir o que é o verdadeiro amor. Em compensação o 4 de paus representa o quadrado (os quatro lados, as quatro pontas de uma sala), o rígido, o fixo. O que pode apontar para um estado cerceado de liberdade. Isso significa que pelo lado familiar ela tem/terá de enfrentar um estado não muito confortável de experimentação da vida, pois suas possibilidades estarão reduzidas por uma pressão familiar da parte dela ou da dama de copas, a figura feminina que apareceu anteriormente. O 6 de ouro é claro e lípido: sua vida social vai de vento em poupa e tenderá a estar sempre em farta compostura. O 10 de copas é uma surpresa. 10 é um número duplo. Binário. 1 e 0. Isso pode apontar para um profissão em específico: coisas ligadas a tecnologia, computadores, etc. E ela será muito bem sucedida porque 10 é um número alto. Considerável. 10 de copas também aponta para um possível envolvimento afetivo com alguém deste campo profissional.

Damos muitas gargalhadas com nossas próprias premonições. Agora passamos a segunda fase: a carta do futuro, a carta da angústia e a mais temida: a carta da morte. Temos de tirar cada qual de um jeito diferente. A carta do futuro tem do seguinte modo: embaralha-se as cartas, retira-se três cartas do bolo, e escolhe-se, sem ver, uma para a leitura. A carta da angustia deve ser tirada cortando-se o baralho com o dedão e a carta que ficar abaixo deverá ser tomada para leitura. A carta da morte deve ser escolhida do seguinte modo: embaralham-se as cartas. Forma-se o bolo, ou melhor a tumba, o sepulcro, e com a mão em concha corta-se o baralho. A carta que ficar para cima é a carta da morte.

E as cartas que sairam? Hum… Essas deram medo… A carta do futuro que saiu para a mim, analisada pela M., foi um 2 de copas, um dois de coração. Representa segundo ela, uma figura afetiva que, num futuro próximo, ou vou me envolver. Uma figura pela qual eu devo lutar, confiar, sentir. A minha carta da angústia foi um 6 de ouro, revelando que minhas angustias estarão ligadas a meu sucesso profissional apontado anteriormente. Devo ser prudente com a soberba. A carta da morte foi um rei de espadas. Isso mostra que vou morrer velho, já em idade avançada. Mas um homem provocará a minha ruina e consequente morte em decorrencia disso. Devo ter cuidado com homens que ocupam posições de detalhe em relação a mim: chefes, concorrentes, etc.

As cartas da M. foram: 2 de ouro, 5 de paus e 5 de espadas! Dois de ouro, a carta do amanhã, obviamente apontam para um outro alguém na vida dela, bem sucedido pois o naipe é de ouro, que estará presente nesse futuro próximo. O 5 de paus, a carta de todas as lágrimas, é uma carta perigosa. 5 é o pentagrama, a estrela de 5 pontas, os 5 diabos. Significa que tormentas mentais podem ser angustiantes na vida dela. Já a carta da morte foi preocupante. 5 de espadas, a carta com a energia do mal, vinda pela corte! Fatiamento!! Absurdo! Tive de pular em cima de M., segurá-la pelo pescoço e fazê-la jurar, prometer, que ela jamais vai pensar em fatiamento. Ela prometeu. Então tivemos de tirar outra carta. Saiu um 5 de paus. 5 de novo! Mudou o modo de morte de fatiamento para coisas impactantes. Queda? Seria um acidente envolvendo carro ou avião? Seria uma vontade súbita de saltar de um prédio? Não! Tive de fazê-la jurar que ela não se mataria pulando de um prédio. Então tivemos de outra carta. Um dois de ouro. Ufa! Agora vemos o futuro sendo traçado: a M. morrerá de velhice, num leito de hospital. E terá dinheiro no fim da vida.

HAHAH Quantas risadas! Quantas projeções sublimadas! Acabamos de almoçar e fomos dar um passeio no parque da redenção. Mal sabiamos o que estaria por vir.

Quarta-feira, 24 de fevereiro. Local: numa poltrona de avião. Escrito por: M..

Estamos pousando em Curitiba. Um pouco de nebulosidade. Sol forte. Muito verde lá embaixo. Interrompo a escrita para observar a paisagem. O avião dança no céu. Suas rodas saem pra fora. Sinto a pressão das coisas. É manhã, ainda. O motor fica mais potente.

Acordamos pela manhã após uma “festa” na noite anterior. Nerds hippies. Cigarros sem muita química. Computadores. Preferi me entreter com a tela. Me sinto deslocada no meio de muita gente. Um bloqueio.

Eeeeeeeeeeeeeeee o avião pousou e corre naquela velocidade agressiva e barulhenta.

Interrupções: vamos descer no aeroporto de Curitiba.

Ah, não. Não podemos descer.

Continuando:

A menininha está falando. O inglês dela é tão ruim.

Observo a pista.

O avião parou. Agora alguns passageiros descerão. Eles se levantam, pegam suas bagagens. Uma pequena fila forma-se na saída. O restante permanecerá sentado com destino à Guarulhos.

Estou sentindo saudade de Porto Alegre, já.

Faço perguntas para quebrar o silêncio. Mas são perguntas fracas e vazias. Que me importa saber se vai entrar mais gente nesta nave?

Queria poder descer e perambular mais pelo local. Mas aeroportos ficam tão distantes. Nem vale a vista.

F. está compenetrado em seu próprio pensamento. Sinto contentamento nele em voltar para o lar. Ele está mais sério que o normal.

Estou com fome. E eles nem serviram ainda as bolachinhas.

Penso que cansaço será voltar para SP. Ter de pegar ônibus pra ir até algum metrô, depois metrô pra estação mais próxima, depois outro ônibus para casa. O ruim das viagens é o retorno.

R. foi conosco no mesmo trem que nos levou ao Salgado Filho. Nos despedimos ali mesmo, no vagão. Um abraço sutil. Ela foi em direção ao trabalho, que ficava uma estação a mais da nossa. Muito vento na passarela até o ônibus gratuito que nos levou até o aeroporto.

Estamos parados ainda, sinto impaciência no ar. Não sei por quanto tempo permaneceremos assim. Meu corpo inteiro está tenso da noite mal dormida.

F. está alisando seu bigode.

10:23 – F.

Ainda parados no aeroporto de Curitiba, aguardamos para o retorno a SP. Algumas coisas importantes me esperam. Espero que tudo transcorra bem. Recordações dessa viagem? Muitas. Fotos das ruas, do céu, do rio, da cidade, do concreto, mas também das pessoas, minhas com a M., das meninas que nos hospedaram, dos amigos que reencontrei.

O sotaque, o mate, o mercado público, o calor intenso. Vamos voltar ainda este ano. Provavelmente no inverno.

 

Documentário sobre Tradição Oral – SESC

Via Cajuinas: http://cajuinas.blogspot.com.br/2009/05/tradicao-oral-e-contar-historias.html