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Dia do Saci

O dia do Saci está chegando, minha gente! É no próximo 31 de Outubro! Para comemorar, antecipadamente, publico aqui uma história muito bacana do meu amigo Ricardo Azevedo!

O Saci

Gente como a gente, habitante da cidade grande, acostumado com luz elétrica, entregador de pizza, televisão, poluição, telefone celular e computador não entende nada de Saci e só vai ver o Saci no dia de São Nunca. Acontece que o Saci é filho do mistério, filho do vento que assobia, filho das sombras que formam figuras no escuro, filho do medo de assombração.

O Saci é uma dessas coisas que ninguém explica. Por exemplo, é muito fácil explicar uma casa. Ela tem tijolos, paredes, janelas e serve para morar. É muito fácil também explicar um cachorro. Pertence à espécie canina, late, abana o rabo, às vezes morde, faz xixi no poste, é amigo das pulgas(bem alguns nem tanto) e serve para tomar conta de casas ou apartamentos. Agora tente explicar o gosto. Por que tem gente que só gosta de Rock Pauleira e tem gente que só ouve musica Clássica ou então Pagode?

Experimente explicar a beleza ou o sentimento, ou as coincidências que acontecem, ou sonhos, ou um pressentimento. Você já teve um pressentimento? Já sentiu que uma coisa ia acontecer e no fim ela aconteceu mesmo? Pois bem, agora tente explicar.

As vezes a gente está calmamente em casa com algo na mão. O telefone toca, a gente atende, bate um papo e quando desliga cadê a coisa que a gente estava segurando? Sumiu! A gente não consegue acreditar. A coisa estava aqui agorinha mesmo! A gente procura em todo canto, xinga, reclama, arranca os cabelos, vira a casa de cabeça para baixo e nada. De repente olha para o lado…Não é possível! A coisa está ali bem na cara da gente. Numa casa de Caboclo, quando isso acontece, as pessoas dizem que foi obra do Saci. Dizem que o saci é que tem mania de esconder as coisas e depois fica escondido dando risada enquanto a gente faz papel de bobo.

É, Saci é um ser misterioso, habitante do mato. Sua aparência é a de um negrinho, pequeno e risonho, de uma perna só, com um capuz vermelho enterrado na cabeça, sem pelos no corpo nem órgãos para fazer necessidades. Costuma ter três dedos nas mãos, tem as mãos furadas e quando quer solta um assobio misterioso e fica invisível. Além disso vive com o joelho machucado e sabe comandar os mosquitos e pernilongos que vivem atazanando a vida da gente.

Ah, tem outra coisa, o malandrinho aprecia fumar cachimbo e consegue soltar fumaça pelos olhos. Quando está de bom humor pode ajudar as pessoas a encontrarem objetos perdidos. Em compensação, adora pregar as piores peças nos outros, faz os viajantes errarem seus caminhos, esconde dinheiro, esconde coisas de estimação, faz vasos, pratos e copos caírem sem motivo e quebrarem, gostar de aprontar com os bichos e é especialista em fazer comida gostosa dar dor de barriga.

De vez em quando, o saci sai girando em volta de si mesmo feito um peão maluco e gira tanto, tanto, tanto, que até levanta as folhas secas e a poeira do chão. Alias, muitos afirmam que ele é a única explicação possível para a existência dos roda moinhos.

O Saci tem vários nomes dependendo da região onde aparece. Pode ser Saci-Sererê, Saci-Pererê, Saci-Sassura, Saci-Sarerê, Saci-Siriri, Saci-Tapererê ou Saci-Triti. As vezes é chamado de Matitaperê, ou Matita-Pereira, ou Sem-Fim, que na verdade são nomes de pássaros. É que em certos lugares dizem que o danado, quando perseguido, dá risada, vira passarinho e desaparece deixando todo mundo de queixo caído.

Mas, o Saci pode ser perigoso. As vezes, chama as criancinhas, canta, dança, inventa lindas histórias e acaba fazendo as inocentes se perderem na floresta. Pode também fazer um caçador entrar no mato e nunca mais voltar para casa.

Para dominar o Saci só tem um jeito. Primeiro, pegar uma peneira. Segundo, esperar um rodamoinho dos fortes. Terceiro, atirar a peneira bem em cima do pé-de-vento. Quarto, agarrar o Saci que vai estar preso na peneira. E quinto, prender o espertinho dentro de uma garrafa. Sem aquele goro vermelho o Saci fica apavorado, geme, choraminga, fala palavrão, implora e acaba fazendo tudo que a gente quer.

É bom morar na cidade, mas, bem que seria legal, um dia, assim derrepente, encontrar um Saci de verdade fazendo bagunça, fumando cachimbo, soltando fumaça dos olhos, virando passarinho e sumindo no espaço. É ou não é?

AZEVEDO, Ricardo. Armazém do folclore. Ed.Ática, São Paulo, 2003.

 

Sites do Saci:

Sociedade dos observadores de Saci: http://www.sosaci.org/

Aparições do Saci: http://eosaciurbano.art.br

 

 

Ação Grio – Políticas Públicas para o Contadores de Histórias

Lá vai, lá vai, lá vai, a sandália leva o homem e o homem a história.
Musica do mestre Griô Paraquedas do Ponto de Cultura Odômodê

São tempos de novos olhares para antigas expressões culturais que hoje alguns classificam como arte. Nesse bojo está o fazer do Contador de História. Pensando nesse tema aproveito esse espaço para escrever uma postagem relacionada a políticas públicas envolvendo o contar histórias, um tema tão especial a mim. Começo pela “Ação Grio”.

As primeiras lembranças que tenho dessa ação vem de reflexões e considerações feitas por integrantes do projeto “Grãos de Luz”, de Lençóis – BA, que com o tempo ganhou espaço de fomento pelo Ministério da Cultura. Em 2006 a ação ganhou seus primeiros formatos já com esse nome, numa associação ao programa Cultura Viva. Lembro-me de ter participado da 1° Teia Nacional dos Pontos de Cultura e de ter encontrado Líllian Pacheco e Márcio Caíres num debate e de ter conhecido o documentário que na época eles havia empreendido com registros de viagens pelo Brasil e ações locais em Lençois. (foto ao lado)

Desta ocasião em diante o projeto só cresceu e ganhou cada vez mais cores, sons e desdobramentos. Houve ampliação das ações em formato de rede (Rede Ação Griô), encontros regionais, participação dos integrantes em fóruns e espaços de discussão e fomento cultural, entre muitas outras coisas.

A Rede Ação Griô, por exemplo, se articula na maioria dos casos em conjunto com a dos Pontos de Cultura, o que fortalece ambas. Um exemplo, no sul do Brasil, é a parceria entre o Quilombo do Sopapo e a Ação Griô de Pelotas, encontro que resultou registro audiovisual sobre a construção do sopapo pelo Mestre Batista e na composição de músicas por Richard Serraria e Marcelo, músicos e ativistas do movimento Música para baixar. O sopapo é um instrumento de percussão muito importante para a cultura afrogaúcha e também para a rede de culturas do Brasil e certamente o encontro de pontos de cultura ligados a cultura digital pode fortalecer e estabelecer trocas importantes com a Ação Griô.

Ação Griô, em poucas palavras portanto, é uma rede de educação e cultura de tradição oral. Faz parte do Programa Cultura Viva do Ministério da Cultura enquanto apoio por meio de alguns editais o que não impede de num futuro próximo ou distante essa caracterização mudar. Entre seus objetivos principais está a estimulação da ligação entre os educadores e a comunidade numa perspectiva da transmissão dos saberes por meio de narrativas de tradição oral.

Este é o portal da ação: http://www.acaogrio.org.br

O canal deles no YouTube está recheado de muita coisa bonita e interessante: http://www.youtube.com/user/graosdeluz

Se você também conhece outras políticas públicas voltadas a Contadores de Histórias ou mesmo outras ações públicas ou privadas que estejam relacionadas a temática, deixe um comentário por aqui. Listo abaixo alguns vídeos interessantes que descobri pelos caminhos da rede. Se souber de outros que trazem menções, canções, danças, performances ou vivências parecidas, compartilhe por aqui também!

Pequeno documentário sobre o projeto Grãos de Luz e Griô:

E aqui uma entrevista com Marcelo Manzatti, atropólogo que na época deste registro era responsável por algumas das frentes desse projeto junto ao Ministério:

Lá vai, Lá vai… – Mestre Paraquedas e PC Barbosa: