Desconhecido

Desconhecido

Você pegou aquele velho caderno triste de folhas soltas que há dez anos não via a luz e riu. Depois de dias preocupado, ausente, sem tempo: riu. Um riso irônico. Lembrou que sua vida foi forjada na inocência de mundos imaginados. E concluiu que era hoje, essa noite.

O que fazer com o convite impossível que demorou para vir porque não era nem para ser de verdade? De viver naquela ponta paradisíaca do sul do continente, onde não neva nem esquenta demais e os rios encontram o mar, tem pinguins, poucas casas (todas com horta no quintal) e bicicleta é o único meio de transporte que precisa. E você acabou de se casar. Então você ama as duas coisas, mas as duas não se amam exatamente nas atuais condições. O check-mate sobrou na sua vez. Daí você conclui que é melhor dormir. E dorme um sono intranquilo. Todo dia.

Acorda no meio da noite com dor de estomago te irritando, soprando um vento que sai da sua boca sussurrando: foge… foge…

Mas tudo vai mudar quando sua filha nascer na primavera. Os sentidos vão ser outros, seus olhos, sua atenção… Seu carinho vai ser todo diferente, você pensa, ao mesmo tempo que olha para aquela foto em que está abraçado não sabe bem com quem e nem lembra mais o nome, só que ela estava naquele intercambio também. Porque ser pai era um sonho. Até você sacar que os filhos em sua maioria são muito diferentes dos pais e dão um trabalho fudido, além de ser uma babaquice qualquer ideia de imortalizar seus traços misturados com os de outrem em uma nova pessoa.

E de que importa? Mês que vem você faz trinta e três e a grana daquele novo projeto vai sair. Trinta e três com uma cria chegando vai ter uma festa foda. Você vai comprar um computador novo e quem sabe uma câmera com desconto. Vai ajudar sua irmã mais nova sair do vermelho e vai comer naquele restaurante vegetariano das ocasiões especiais.

E se não for bem assim, sem pressa, porque afinal você se cuida…

Autor desconhecido dele mesmo.

felipecabral

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