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Fazendo uma composteira

O ano de 2015 começou e aproveitei os dias de inicio de ano para tocar adiante alguns projetos que estavam parados. Um destes projetos era o de uma composteira grande para produção de adubo. Depois de ensaiar com composteiras menores e improvisadas, resolvi arregaçar as mangas e fazer uma composteira mais planejada numa casa de campo. Tive uma ajudante de ouro e acho que no fim das contas saiu tudo como eu esperava. Deixo então aqui alguns registros, ou melhor, passos do que foi feito.

Antes duas notas importantes:

A – Recentemente meu irmão me apresentou o livro “Manual do arquiteto descalço”. Vale muito a pela ler, mesmo que nem de longe você seja arquiteto. A proposta do livro é mais “do it your self” e lembra bastante o projeto “Open Source Ecology“. Certamente me inspirou ainda mais na construção dessa composteira.

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B – Existem muitos tipos de composteiras que são uma mistura de compostagem com minhocário. A proposta aqui é focada mais na compostagem de resíduos de jardim, isto é, em restos de folhas, galhos e cascas de árvores. Se você quer uma composteira mais diversificada, vale a pena procurar outros modelos, pesquisar antes de decidir.

Há composteiras feitas em recipientes próprios, com andares diferentes para cada estágio de decomposição:

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Já outras podem ser feitas de um único recipiente, como é o caso da que vamos abordar aqui. Alguns vem com dispositivos automatizados de movimento interno ou externo. Este exemplo abaixo é de uma composteira giratória:

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Mas também dá para fazer com materiais bem simples e até improvisados como essa mini-composteira feita de garrafas de refrigerante reutilizadas ou essa outra feita com cabos de vassoura e telas de arame.

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Ou seja, infraestrutura ou orçamento alto não são desculpas para deixar de fazer uma composteira.

E como ficou a composteira por aqui?

Passo-a-passo…

 

1 – Compramos uma caixa d’água de polietileno com tampa, com capacidade para 100 litros. Esse tipo de caixa é fácil de encontrar em lojas de materiais para construção. Como já mencionei, é possível usar outros tipos de material como baldes grandes com tampa, caixas plásticas de organização de materiais (dessas que se encontra em papelarias ou lojas de escritório) ou mesmo fazer uma estrutura com tijolos. Um amigo mostrou-me até uma vertical feita com suporte de porta-treco de tela sintética.

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2 – Junto com a caixa, adquirimos também uma conexão do tipo adaptador com borracha de vedação, destas de encanamento, de médio porte e uma torneira pequena com rosca para a valvula. A torneira serve para retirar o chorume quando este se acumular no fundo da caixa.

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3 – Marcamos com uma caneta a circunferência da conexão-adaptador e fiz o furo com um ferro quente pois estava sem furadeira no instante de fazê-lo. Depois encaixei a conexão e apertei bem com o grifo.

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4 – Fixada a conexão-adaptador, testei se não estava vazando pelos lados colocando um pouco de água dentro da caixa. Tudo certo! Depois inseri a torneirinha e fiz o teste novamente.

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5 – Aparentemente a composteira estava pronta até aqui. Mostrei o projeto para um amigo e ele me lembrou de algo essencial: bacterias aeróbicas precisam de ar. São elas que vão fazer boa parte do trabalho de transformar matéria orgânica em decomposição em insumos férteis para serem usados como adubo. O que fazer? Furos na caixa! Achei, enfim, a furadeira e fiz furos ao redor para que o ar pudesse passar mesmo com a tampa fechada.

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6 – Terminados os furos, construí uma base de tijolos sobrepostos para assentar a composteira em cima e passei então a fase mais aguardada: o preenchimento e montagem da matéria.

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7 – Comecei com uma boa camada de folhas. Coloquei mais ou menos 8 centímetros de folhas amareladas no fundo da caixa e prossegui fazendo todas as camadas do mesmo tamanho. Depois cobri com uma camada de areia. Por cima da areia, duas camadas de pequenos galhos picados já secos. Depois uma camada de terra e depois três camadas de folhas secas de pinheiro bravo. Por fim cobri com mais uma camada de terra e em cima da terra uma camada de cinzas de carvão.

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8 – E finalmente a nossa composteira ficou pronta! Coloquei a tampa e marquei a data no calendário. A cada 30 dias o material pode ser remexido para promover a deterioração completa da matéria orgânica e consequente transformação em adubo. A cada 10 dias, é necessário abrir a torneira para retirada do chorume. Se tudo correr bem, em 120 dias todo material vai estar transformado. A cor será bem preta e o formato como de migalhas. Esse adubo pode ser esterilizado deixando alguns dias abertos no sol ou levado ao forno há 200 graus por 30 minutos. Feito isso o adubo já pode ser usado. As plantas agradecem!

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Link para olhar: http://www.moradadafloresta.org.br/produtos-principal/composteiras-domesticas

#CryptoParty no #FISL15

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Depois da ascensão das criptofestas em 2012 por todo o mundo, depois de tudo que aconteceu durante 2013 com relação ao vazamento de informações sobre os governos dos five eyes (sobretudo NSA nos EUA), depois da primeira Cryptoparty Edição Salvador 2013, depois da Cryptoparty São Paulo 2013 e do sucesso da Cryptorave 2014, eis que vamos ter uma CryptoParty no FISL 2014!

As atividades irão ocorrer durante o FISL 15 e a programação segue abaixo e também no site do FISL15. Antes disso também teremos uma espécie de encontro Cryptoparty Pré-fisl nos dias 05 e 06 de Maio, na FACCentro. O objetivo é dialogar com membros de movimentos sociais que queiram saber mais sobre vigilância na rede, segurança digital e criptografia. Dia 05 das 19 às 21 hrs e dia 06 das 14 às 19 horas. Os dois eventos são abertos e gratuitos.

1. Cryptoparty PRE-FISL15 – FACCCENTRO
Rua Marechal Floriano Peixoto, 185 – 8º andar
Porto Alegre – Rio Grande do Sul

2. CryptoParty FISL 15 – PUCRS
Av. Ipiranga, 6681 Partenon
Porto Alegre – Rio Grande do Sul

Programação Cryptoparty FISL15

Dia 07/05/2014

13H – Debate de abertura: As perspectivas e os desafios da comunicação segura
Local: sala 41F
Palestrantes: Daniel Kahn Gillmor, Silvio Rhatto, André Bianchi

16H – Compilação Determinística
Local: sala 40T
Palestrante: Seth Schoen

Dia 08/05/2014

14H – Technology that controls, technology that liberates \ A call to action
Local: sala 40T
Palestrante: Jeremie Zimmermann

16H –  Software livre e a era da espionagem
Local: sala 40T
Palestrantes: Jeremie Zimmermann, Isabela Fernandes, Leonardo Lazarte, Seth Schoen, Pedro Rezende

Local Oficinas: sala 714

Oficina 1: Como gerar e usar criptografia no email com o GPG
Palestrante: Felipe Cabral

Oficina 2: Boas práticas do OpenPGP (OpenPGP best practices)
Palestrante: Daniel Kahn Gillmor

Oficina 3: Ferramentas OpenPGP para criptosindicatos (schleuder, monkeysphere e keyringer)
Palestrante: Silvio Rhatto

Oficina 4: Radical Protocol Design
Palestrante: Daniel Kahn Gillmor

Oficina 5: TOR: Como navegar anonimamente pela internet
Palestrante: Gustavo Gus

Oficina 5: TAILS: sistema amnésico e incógnito
Palestrante: Gustavo Gus

Dia 09/05/2014

14H – Segurança oportunística e Perfect Forward Secrecy
Local: sala 40T
Palestrante: Daniel Kahn Gillmor

16H – Cypherpunks e a Militarização do ciberespaço
Local: sala 41B
Palestrantes: Felipe Cabral, Jeremie Zimmermann, Ricardo Poppi, Sergio Amadeu
17H – Projeto de Acesso Criptografado (Leap)
Local: sala 41D
Palestrante: André Bianchi

 

 

 

Artigo 15 e economia da vigilância: Marco Civil da Internet

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O inicio de 2014 foi marcado por uma grande mudança no cenário dos direitos da Internet no Brasil. Há meses paralisado, o projeto do Marco Civil da Internet [1] – constituição brasileira de direitos e deveres sobre a rede em territórios pertencentes ao Estado, numa tacada única que durou pouco mais noventa dias, foi finalizado, analisado, votado no congresso, votado no senado e por fim sancionado pela presidenta em exercício Dilma Rousseff [2]. Um alívio para todos os ativistas que, durante anos, lutaram por sua consolidação e um golpe para aqueles que estavam de olho no crescimento da economia da vigilância. Dado esse contexto, eis alguns pontos de analise do que isto pode representar.

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Na Austrália, durante os anos de 2011 e 2012, o cenário político-legislativo e as pressões sobre os temas ligados a privacidade e segurança digital eram bem próximos aos do Brasil. Isso acabou por motivar a resistência de uma série de ativistas e culminou na realização da primeira idéia de Cryptoparty [3] do mundo. Discursos e projetos de lei em ascensão que de certa forma impunham a guarda de logs e quebra de privacidade aos usuários da rede foram estopins para essa discussão e esse embate.

A história parece se repetir em solo brasileiro, mas com cores e desfechos diferentes e apresenta características sintomáticas dada a observação das contradições presentes. Há menos de duas semanas do dia em que o Marco Civil foi finalmente sancionado, mantendo em seu texto aprovado um artigo que condiciona e obriga o armazenamento de acessos dos usuários, houve uma grande CryptoParty neste mesmo solo, talvez a maior de que se teve notícia até o momento, reunindo mais de 2 mil pessoas para discutir e vislumbrar panoramas exatamente opostos ao que estaria por vir.

O artigo 15 e a guarda de logs: vigilância e controle

Guardar logs, em outras palavras, significa registrar dados de usuários, manter uma base de dados permanente ou temporária com informações e registros capturados em tempo real.

No Marco Civil da Internet isto é tratado na subseção III, que diz da “Guarda de Registros de Acesso a Aplicações de Internet na Provisão de Aplicações”, pelo artigo 15. Nele está posta a obrigatoriedade, em termos da lei, da manutenção de registro de acesso dos usuários pelo prazo mínimo de 6 meses por todo e qualquer provedor de aplicações de internet constituído sob forma de pessoa jurídica. Traduzindo em outras palavras, isto significa que todo serviço de hospedagem de sites, de modo prévio e sem necessidade de informar ao usuários, terá obrigatoriamente de guardar informações de acesso de usuários em um banco de dados próprio que poderá ser solicitado a qualquer momento por um órgão jurídico brasileiro.

Neste caso são os “serviços de segurança” que aparelham o Estado os beneficiários diretos, e por consequência, o próprio Estado no exercício do poder de controle e coerção que se fortalecem. Para o professor Sérgio Amadeu, “a guarda de logs resulta principalmente no controle biopolítico dos cidadãos”, evocando assim numa análise foucaultiana o caráter perverso que uma simples condição como essa pode gerar no tecido social.

O sistema jurídico passa a ter mais poder e controle sobre a vida dos cidadãos, numa intencionalidade clara de vigilância para punição, gerando um novo paradigma de administração da vida com enlaces sobre a dimensão digital, que até então não estava regulamentada.

Se por um lado o argumento da “insegurança” diz falsamente que contraventores estão na internet cometendo crimes e que guardas logs “protege” a sociedade contra estas ações, por outro, fica evidente que no mundo analógico estes fatos acontecem sem a internet e ninguém, numa democracia, monitora a vida dos cidadão dessa forma. Crimes são cometidos todos os dias, muito mais fora da Internet do que dentro dela. A Internet só reflete coisas do mundo físico. O que pode estar para além disso, então?

O artigo 15 e a guarda de logs: mercadoria

A guarda de logs funciona também comercialmente, em ações próprias e deliberadas, em uma série de serviços. Desde call centers telefônicos até empresas aéreas, passando pela maior parte de serviços gratuitos de comunicação ou de busca de informação na rede.

Está muitas vezes ligada também ao “direito do consumidor”, quando por exemplo, uma ligação telefônica é gravada. É o “direto do consumidor” em tese, nestes casos, que pode estar em jogo. Uma informação histórica de uma conversa entre um vendedor e um consumidor por vezes é usado como prova de que o consumidor fez determinadas solicitações a uma empresa. Vivemos numa época em que complexos contratos jurídicos são assinados por um aceite verbal. Quando a empresa ou o consumidor incorrem no não cumprimento de contratos, muitas vezes essas ligações podem ser usadas em processos judiciais. O problema aí está na imposição da gravação e no uso que se faz dela. O sujeito-consumidor não escolhe sobre o registro, a guarda deste áudio é feita por procedimento padrão.

Em paralelo a este uso jurídico-contratual existem outras formas mais exploradas de uso. No caso, por exemplo, de companhias aéreas, sites de busca, redes sociais proprietárias, lojas virtuais, etc, o modelo de negócio, isto é, uma grande parte ou a totalidade da exploração comercial é baseada na criação de grandes bancos de dados de acesso dos potenciais consumidores.

A extração de mais-valia [4], neste caso, é direta e implica na venda desta informações. E indireta numa segunda camada com o uso publicitário dessas informações. Consiste esse funcionamento, já atual e largamente praticado em escala por toda parte, no coração operacional da mercadoria moderna dentro do capitalismo cognitivo [5]. Para estas empresas e modelos de negócio, a guarda de logs é uma vantagem econômica, uma parte essencial de seu processo de geração de lucros, uma condição aplicada para acelerar e aprofundar a criação de desejos de consumo.

Colocado esse patamar, podemos inferir com bastante clareza que o artigo 15 está presente no Marco Civil da Internet não apenas por questões de descuido ou por animosidades de cibersegurança, mas também e sobretudo pelo forte apelo de alguns modelos de negócio sobre o poder político. Indiretamente a guarda de logs servirá de base para a ampliação destes usos onde o controle está a serviço de uma economia.

Os indivíduos são transformados inevitavelmente em produtos quando a guarda de logs é involuntária. Ainda que nesse caso a lei só disserte diretamente sobre o aspecto do controle para um entendimento de “segurança social”, há uma indução indireta que caminha para outros usos e para a transformação dos acessos sensíveis em dados ricos exploráveis mercadologicamente. A exploração comercial está totalmente fora do alcance ou do controle do indivíduo, tornando-o alienado na origem, por assim dizer, numa relação onde o trabalho implícito é realizado sem evidência aparente.

A obrigatoriedade da guarda supõe uma futura regulamentação, mas mesmo a mais simples regra vai certamente impor guarda de ips, hora de acesso, geolocalidade e possivelmente outros dados como tempo de permanência, páginas visitadas, conteúdos observados, etc. A manutenção de bancos de dados com estas informações vão gerar custos a quase todos os proprietários de sites. Em alguma medida, vale afirmar aqui que a publicação de conteúdos na internet vai ficar mais cara para pequenos empreendedores, jornalistas, cooperativas e outros arranjos de grupos sociais que utilizam a internet como forma de disseminar informações e conteúdos.

A guarda de logs instaura, portanto, um mecanismo de vigilância em massa permanente e vulnerabiliza fortemente o cidadão comum, deixado-o a mercê de qualquer solicitação jurídica destes dados, atacando seus direitos de liberdade e privacidade.

No mundo analógico, se quisermos fazer o exercício de pensamento, seria como se uma pessoa tivesse de prestar contas, involuntariamente, de cada jornal que compra numa banca de jornal, de cada livro que lê numa biblioteca, de cada disco que escuta numa loja. É a vigilância completa e autorizada na Internet. E quem ficaria responsável pela guarda dessas informações, no exemplo que estamos tomando, seria um intermediário – provedor de aplicações de internet – que observaria o jornaleiro, o livreiro ou “o dono da loja” e seus respectivos clientes. Imaginem viver num mundo onde toda pessoa que para em frente a uma banca de jornal tem que ter seu nome e endereços anotados numa caderneta por esse intermediário. Isso não só causaria um grande transtorno para o jornaleiro como inibiria todos de pararem para observar. No caso da guarda de logs o exemplo continua válido: muitos provedores, especialmente os de pequeno porte, terão de contratar mais pessoas ou outras empresas só para executar esse serviço.

Um outro aspecto que tange ao mercado é a destituição da possibilidade de negócios pautados em fornecimento de serviço de hospedagem segura e/ou anonima. Imagine que uma determinada empresa queira oferecer aos seus clientes um serviço hospedagem de sites anonimo, isto é, sem guarda de logs, sem registros de navegação, sem retenção de qualquer dado sensível. Isso poderia ser bem útil no caso de um site sobre jornalismo investigativo, por exemplo. Um usuário se sentiria mais seguro em enviar uma denúncia com provas para um site destes do que para um site no qual ele estaria sendo traqueado. Com o artigo 15 esse tipo de negócio fica proibido no Brasil.

Resistência

Grupos sociais organizados preocupados com estas questões desde o princípio da concepção do primeiro pré-projeto do Marco Civil estiveram engajados em informar, elucidar e divulgar diversos prognósticos de análise sobre a guarda de logs e outros pontos conflitantes da lei.

Até o último minuto antes do sancionamento houve uma tentativa de informar o Congresso, o Senado e Presidência da República sobre a armadilha destes aspectos contidos no texto. No entanto, estas tentativas falharam uma vez que determinados acordos políticos entre os partidos que estão atualmente no poder vislumbraram a necessidade de manutenção do Artigo 15.

Uma carta assinada por diversos destes grupos, explicitando o conflito legal e as implicações econômicas, foi entregue em mãos à presidenta Dilma Rousseff, a qual reproduzo aqui [6]. Esse esforço não redimiu a coalização de forças já previamente acertada e por fim a lei foi sancionada da maneira como estava, isto é, como o Artigo 15.

Cabe-nos então uma última questão para debruçar: existem possibilidades de resistência, dado esse cenário que parece destituir o cidadão comum de qualquer direito de intervenção? Vamos ter de descobrir a resposta e os caminhos nos tempos que virão, tomando muito mais cuidado, pois a partir de agora todos nós estamos cercados e vigiados por força da lei.

[3] A cryptoparty, ou cryptofesta, é um novo tipo de evento que surgiu no mundo durante o ano de 2012. Mixando elementos de eventos de tecnologia com hábitos típicos de qualquer festa, jovens começaram a se juntar para fazer um evento em favor da privacidade e da segurança digital, com foco em criptografia e anonimização dos dados. Este movimento teve inicio na Australia, país onde a época as forças do Estado estavam prestes a implementar leis anti-privacidade para todos os cidadãos. Em questão de horas o movimento auto-organizado em prol das criptofestas ganhou força. Cidades como Sidney, Nova York e Berlin foram as pioneiras. Depois dos escandalos de espionagem provocados por revelações do Wikileaks e Edward Snowden, sobre os governos dos Estados Unidos e Grã Bretanha, a ideia de disseminar conhecimentos tecnológicos para impedir a intrusão em massa ficou forte. Rapidamente a iniciativa se espalhou por diversas cidades na Europa e hoje o evento é realizado em mais de 500 cidades do mundo, muitas vezes simultaneamente. No Brasil a primeira CriptoFesta aconteceu em Salvador, em Outubro de 2013. Logo depois houve uma edição em São Paulo e uma outra em Porto Alegre. No inicio de 2014, a comunidade organizadora do evento resolveu fazer uma criptofesta ainda maior, com 24 horas de duração, chamada de cryptorave.

[4] Em linhas gerais, o termo mais-valia é o nome classicamente empregado, numa perspectiva sócio-política Marxista, da diferença entre o valor final de uma determinada mercadoria produzida e a soma do valor dos meios de produção e do valor do trabalho, que seria a base do lucro no sistema capitalista.

[5] Capitalismo cognitivo, também chamado capitalismo cognitivo-cultural ou terceiro capitalismo, entendido como uma fase posterior ao mercantilismo e o capitalismo industrial, é uma teoria centrada nas mudanças socioeconômicas provocadas pelas tecnologias da Internet e da Web 2.0, as quais têm transformado o modo de produção e a natureza do trabalho. Nessa fase do capitalismo – correspondente ao trabalho pós-fordista – haveria maior geração de riqueza comparativamente às fases anteriores, e o conhecimento e a informação (competências cognitivas e relacionais) seriam as principais fontes de geração de valor. A teoria do capitalismo cognitivo tem sua origem na França e na Itália, especialmente nos trabalhos de Gilles Deleuze e Felix Guattari (Capitalismo e Esquizofrenia), de Michel Foucault (sobre o nascimento do biopoder) e nos conceitos de império e multidão, elaborados por Michael Hardt e Antonio Negri, e também no movimento italiano marxista autonomista que tem suas origens ligadas ao operaismo italiano dos anos 1960. Outro teórico de referência que escreveu sobreo tema foi o economista francês Yann Moulier Boutang. Seu livro “Capitalismo Cognitivo” analisa a mudanças econômicas da atualidade e aponta quais seriam as características principais deste sistema.

[6] https://felipecabral.com.br/wp-content/uploads/2014/04/oficio_presidencia_mci.pdf

1o Grande Ato Contra o Monopólio da Mídia no Brasil

Fotografias tiradas durante o ato que reuniu centenas de manifestantes em torno da pauta “Democratização dos Meios de Comunicação e fim do Monopólio de Mídia no Brasil”, ocorrida no dia 11/07/2013, a partir da praça General Gentil Falcão e localizações em torno da Rede Globo de Televisão. #OcupeAMidia #SejaAMidia #ForaRedeGlobo #VemPraRua #11jLutas

Também publicado em revista Radis.

revista

 

“Radis de agosto já está no ar, discutindo a luta pela democratização da Comunicação no Brasil e seus impactos nas questões de Saúde.

Uma das reivindicações que foi levada às ruas de todo o país nos últimos meses, essa é uma demanda dos movimentos sociais desde a 8ª Conferência Nacional de Saúde, que defendem que regulação, neste caso, é sinônimo de democracia!

Também nesta edição: Quem ganha e quem paga a conta com as deduções de gastos com saúde; as vantagens e os caminhos para deixar o cigarro e o perfil de Carlos Gentile de Mello, um dos precursores da Reforma Sanitária!”

Acesse agora o conteúdo completo em http://www6.ensp.fiocruz.br/radis/revista-radis/131

 

 

Desaparecida

M.M.Antes de dormir, no momento impreciso cuja tremulação se dá entre o consciente e o inconsciente, naquele estado meio devaneio meio ainda vigilante, sentia uma dor estranha, inexplicável. Era um momento incomum que nunca ouviu falar que os outros tinham, mas ela sabia o que era. Sabia sentindo sem muitas palavras para descrever. Mudavam as cores, mudavam os sons. De olhos fechados via flashes de bombas, de fumaças no céu, doía o pé, o peito apertava, cada dia de um jeito mas sempre doido, sempre confuso, sempre desconforto. Depois passava, vinha a preguiça, o calor confortável, a moleza, o sono. E dali pra diante só se lembrava de algo se fosse acordada, rompendo a barreira entre a loucura de qualquer coisa sem sentido que só os sonhos são capazes de produzir e sua mente pensando sobre sua mente.

Um dia estava nesse processo descoberta, com pouca roupa e com a janela aberta. O que em geral durava poucos segundos durou, provavelmente, mais de uma hora. Então, para que não passasse em branco, acordou e resolveu fazer a coisa mais ridícula que lhe parecesse sobre isso: sentou e escreveu tudo, em detalhes. Depois amassou o papel e jogou fora. Ninguém sabe dizer se passou ou não, até porque, em não sendo daqui, de partida se foi e nunca mais voltou, nem se ouvir falar dela.

Autora desaparecida.

Desconhecido

Você pegou aquele velho caderno triste de folhas soltas que há dez anos não via a luz e riu. Depois de dias preocupado, ausente, sem tempo: riu. Um riso irônico. Lembrou que sua vida foi forjada na inocência de mundos imaginados. E concluiu que era hoje, essa noite.

O que fazer com o convite impossível que demorou para vir porque não era nem para ser de verdade? De viver naquela ponta paradisíaca do sul do continente, onde não neva nem esquenta demais e os rios encontram o mar, tem pinguins, poucas casas (todas com horta no quintal) e bicicleta é o único meio de transporte que precisa. E você acabou de se casar. Então você ama as duas coisas, mas as duas não se amam exatamente nas atuais condições. O check-mate sobrou na sua vez. Daí você conclui que é melhor dormir. E dorme um sono intranquilo. Todo dia.

Acorda no meio da noite com dor de estomago te irritando, soprando um vento que sai da sua boca sussurrando: foge… foge…

Mas tudo vai mudar quando sua filha nascer na primavera. Os sentidos vão ser outros, seus olhos, sua atenção… Seu carinho vai ser todo diferente, você pensa, ao mesmo tempo que olha para aquela foto em que está abraçado não sabe bem com quem e nem lembra mais o nome, só que ela estava naquele intercambio também. Porque ser pai era um sonho. Até você sacar que os filhos em sua maioria são muito diferentes dos pais e dão um trabalho fudido, além de ser uma babaquice qualquer ideia de imortalizar seus traços misturados com os de outrem em uma nova pessoa.

E de que importa? Mês que vem você faz trinta e três e a grana daquele novo projeto vai sair. Trinta e três com uma cria chegando vai ter uma festa foda. Você vai comprar um computador novo e quem sabe uma câmera com desconto. Vai ajudar sua irmã mais nova sair do vermelho e vai comer naquele restaurante vegetariano das ocasiões especiais.

E se não for bem assim, sem pressa, porque afinal você se cuida…

Autor desconhecido dele mesmo.

Das sucatas às formas do mundo por A.C. Estanagel

Entre os dias 14 e 23 de setembro, das 9 às 21hs, no Parque Vila Guilherme – Trote em São Paulo Capital aconteceu o XVI Revelando São Paulo – Festival da Cultura Paulista Tradicional (http://revelandosaopaulo.org.br/rv/)

Pela curiosidade e admiração pela temática, estive presente e entre tanta coisas acabei me deparando com o trabalho do artesão Antonio Carlos Estanagel, da cidade de Itapetininga, interior do estado.

Estanagel faz peças de arte a partir do que alguns chamam de sucata. Ele visita lixões, ferro-velhos e desmanches de carros para pegar matéria-prima para seu trabalho. De enorme criatividade, as peças feitas são bastante impressionantes do ponto de vista da criatividade e recriação. Com uma produção artesanal, gambiarrística e pequena ele sobrevive de seu trabalho, através da venda de algumas peças e pensa em ministrar cursos abertos para ensinar algumas técnicas de criação a outros entusiastas da ArtedoLixo. Abaixo algumas fotos tiradas durante o evento.

Se alguém quiser conhecer o trabalho e/ou entrar em contato, basta entrar no site: http://www.estanagelartes.com.br

Todos os sentidos em Três Corações

Relato sobre a experiência da educação não-formal com a produção de minidocumentários em software livre na semana de tradição oral de 2012 do Museu da Oralidade de Três Corações – MG

Esta é uma escrita breve sobre momentos densos. Um relato curto de uma experiência marcante. Se Drummond pudesse dizer algo sobre isso, talvez dissesse “Brincar com crianças não é perder tempo, é ganhá-lo; se é triste ver meninos sem escola, mais triste ainda é vê-los sentados enfileirados em salas sem ar, com exercícios estéreis, sem valor para a formação de alguém“. Aos que aqui se aventurarem na leitura, peço licença para contar o que se passou do jeito que consegui ver e desculpas por não conseguir presentificar cada um dos sentidos apalpados, olhados, cheirados, ouvidos e gostados pois foram todos vividos. Então vamos lá…
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Ideias com pé e cabeça

Certo dia, com muito tato e simpatia, recebi uma ligação de Minas Gerais da qual não sabia identificar o número. Atendi e do outro lado estava o jornalista Paulo Morais, um dos atuais gestores do Museu da Oralidade da cidade de Três Corações.

Para quem não conhece ou não se lembra, Três Corações é uma das cidades situadas na Serra da Mantiqueira, no sul do estado de Minas Gerais. Paulo ligava para fazer um convite e ao mesmo tempo propor um desafio. O Museu iria sediar a 2° edição da Semana de Tradição Oral de Três Corações e eles queriam fazer algo diferente. Ao invés de construir uma programação com mostras de documentários a ideia era produzir, isto é, colocar a mão na massa, e promover a experiência de fazer documentários, expondo os participantes a vivências de produção. E não acabava por aí. O desafio dessa empreitada estava em produzir esse documentários com softwares 100% livres (open source).

 

“Sem a curiosidade que me move, que me inquieta,
que me insere na busca, não aprendo nem ensino”
Paulo Freire

 

Titubeei um pouco, estava cheio de compromissos pendentes e uma viagem internacional marcada, mas logo aceitei o desafio. Mal sabia que isto resultaria numa das experiências mais plenas dentro das perspectivas de ação educativa não-formal propostas outrora pelo programa Cultura Viva. Depois dessa ligação, tempo passou, até que chegou o dia de ir até lá…
Quantos olhares são necessários para iniciar um trabalho em conjunto? Quantos olhares são trocados antes que afinidades sejam percebidas? Dificil dizer. E quando não é necessário nenhum olhar trocado? Nenhum olhar para que as coisas fluam de uma maneira tão rápida e integrada que quem vê de longe tem certeza que os dalí se conhecem há anos? É a sintonia que faz isso, diriam alguns. Particularmente não sei dizer, mas arrisco um palpite: para cada sentido desejado existe um meio potente e possível, muitas vezes afirmado nas entrelinhas, de realização disso e a percepção desses movimentos pode se dar muito mais rápido do que qualquer protocolo é capaz de comunicar.
Cheguei na cidade numa quarta-feira, dia 16 de maio. Não foram necessários muitos olhares trocados para perceber que queriamos olhar e buscar as fotografias mais sinceras dos retratos mais cadentes daqueles lugares por onde passassemos.   Sai de São Paulo no inicio de uma madrugada fria e o dia foi amanhecendo enquanto eu dormia. Saí do cinza e dos prédios e cheguei numa praça com um jardim, cercada de ladeiras estreitas.
O trabalho já havia começado. Desde segunda-feira o Paulo havia reunido as turmas e começado a falar sobre o que era um documentário, para que as pessoas achavam que servia, pra que achavam que não servia, como eram feitos os roteiros, como eram os processos de produção envolvendo captura de imagens, coleta de depoimentos, edição, pós-edição e uma porção de coisas que deixaram o povo bem intrigado.
Quando cheguei me deparei com um grupo bastante heterogêneo: crianças, adolescentes, adultos, de 10 a 55 anos. Fizemos uma roda. O dia começou em silêncio e aos poucos cada um foi falando pouco a pouco porque estava ali. Mal sabíamos que sairíamos dessa experiência bastante transformados…

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Roda gira, gira roda…

Depois de uma apresentação coletiva na qual cada um era convidado a falar sobre sua idade, interesses de estudo, gostos e jeitos de aprender, comecei a mostrar e a descrever os equipamentos que usaríamos. Entre nossas ferramentas iamos ter duas câmeras que filmavam em (full hd 1920×1080) no formato AVCHD, 3 ou 4 câmeras de fotografia de bolso, celulares, um microfone com entrada p2 para as câmeras e um gravador de voz. A ideia era aproveitar qualquer coisa que estivesse a mão para os registros, sem se ater necessariamente ao uso de equipamentos considerados profissionais.

Foram formados 6 grupos, sendo 3 de manhã e 3 a tarde. Cada grupo escolheu um tema, sem qualquer tipo de censura ou preâmbulo, para trabalhar. Os grupos do período matutino escolheram os seguintes documentários para construir:

  • Grupo 1) O Sorriso – Minidocumentário sobre os valores e significados contidos em um sorriso;
  • Grupo 2) As esculturas do sr. Oswaldo – Minidocumentário sobre o fazer artístico do famoso artista de madeira Oswaldo Inácio;
  • Grupo 3) Composição – Um metadocumentário que tinha como pressuposto documentar o processo de feitura dos documentários anteriores.

Já os grupos do período vespertino escolheram estes outros:

  • Grupo 4) OnLine / OffLine – Minidocumentário que trás dois senhores de mais de 60 anos e suas respectivas visões sobre a Internet, sendo um deles super conectado e o outro o inverso;
  • Grupo 5) Intransitivo – Minidocumentário sobre as dificuldades enfrentadas por pedestres e motoristas no trânsito da cidade de Três Corações;
  • Grupo 6) Vitrais da História – Minidocumentário sobre os centenários vitrais das antigas igrejas de Três Corações.

Escolhidos os temas, cada grupo passou 2 dias (segunda, terça) coletando as imagens principais e os demais dias coletando imagens complementarem, intercalando momentos de gravação/captação com momentos de edição. Durante todos os dias, no meio da manhã e no meio da tarde, éramos interrompidos por um intenso e delicioso cheiro de café e pão de queijo que vinha logo seguido do convite para invadir a cozinha. De todos os sentidos o paladar também estevem presente.

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Do processos e das receitas

Todo processo de educação não-formal pode ser muito beneficiado, na minha opinião, quando feito sob pauta de uma boa documentação e de bons parametros, sem que isso tenha necessariamente que significar a imposição de receitas ao processo. Pensando assim, elaborei um roteiro prévio, como uma espécie de plano de aula, a ser tomado como base, de modo a não comprometer as possibilidades de experimentação ou as possíveis limitações que ísurgissem ao longo do caminho. Este roteiro foi apresentado aos participantes como uma maneira de dizer que poderiamos seguir esse plano. Os escritos ficaram registrados e podem ser acessados aqui na Wiki do projeto Nós Digitais:

 

 

Entre as perguntas iniciais que facilitam bastante a tomada de consciência das identidades do grupo e as possíveis decisões coletivas estão:

 

1 – Orientador/Oficineiro se apresenta;

2 – Rodada de apresentação dos participantes com as seguintes perguntas norteadoras

2.1 – Nome? Idade? Região de origem? Profissão/Trabalho/Área de Estudos?

2.2 – Como é sua experiência com computador? Iniciante? Médio? Avançada? Usa para trabalhar?

2.3 – Qual sistema operacional que costuma utilizar?

2.4 – Já conhece quais softwares de edição gráfica?

2.5 – Quais são seus interesses na oficina?

2.6 – O que gostaria de aprender?

3.0 – O que é Software Livre?

3.1 – O que faz de um software ser “Livre”? (vale lembrar que o tempo e a profundidade de abordagem dessa questão pode variar de acordo com a percepção do educador);

4.0 – O que são licenças permissivas?;

A escolha de uso da wiki está intimamente ligada a proposta de livre melhorias, alterações e derivações desse tipo de documentação. Sendo assim, tanto eu, na posição de oficineiro, quanto o Luiz de 11 anos que participou da oficina na posição de documentarista, podem ter um espaço compartilhado de trabalho e registro na web.
Como ferramentas digitais de trabalho escolhemos usar o Kdenlive. Mas podiamos ter usado qualquer outra ferramenta opesource como o Cinelerra, o Jahshaka, o Blender ou mesmo o Lives.

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Seis Mini produções e uma noite de exibições

Ao todo, durante essa semana de tradição oral, foram realizados 6 minidocumentários de duração de 5 minutos. Cada qual com um tema totalmente distinto dos demais, como já mencionado acima. Os documentários experimentais e frutos desse processo de aprendizagem-criação foram todos finalizados e exibidos ao final desta jornada de uma semana de trabalho. Mas antes deste exibição que marcou um pouco a conclusão desta semana de imersão, destaco dois momentos marcantes que também fizeram parte das comemorações: a exibição do documentário ≠ Diferente (linkado como 7° vídeo abaixo) produzido pela equipe do Museu e a apresentação musical do grupo Ciranda Balaio de Minas (foto acima).
Por fim, quero agradecer ao Paulo Moraes, a Andressa Gonçalves, a Danielle Terra, ao Ronildo Prutente, a todos os demais membros da equipe do Museu da Oralidade e da Viraminas, ao Luiz Guilherme de 11 anos que quase cabulou as aulas na escola para participar mais, aos demais participantes das oficinas, aos entrevistados e entrevistadas para os documentários, ao público que esteve conosco e que veio assistir as apresentações. Muito obrigado a todos vocês. Espero encontrá-los novamente um dia, seja fazendo documentários ou em qualquer outra situação.
Seguem abaixo os vídeos.

As esculturas do Sr. Oswaldo

Intransitivo

Online Offline

Vitrais da história

Composição

  ≠ Diferente

Onde foi?
Semana de Tradição Oral
Local: Museu da Oralidade
(Rua Padre José Bueno, 170 – Centro – ao lado da Escola Luiza Gomes)
Apresentações e oficinas: de 15 a 18 de maio de 2012
Informações: 011 3231-2690
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Dia do Saci

O dia do Saci está chegando, minha gente! É no próximo 31 de Outubro! Para comemorar, antecipadamente, publico aqui uma história muito bacana do meu amigo Ricardo Azevedo!

O Saci

Gente como a gente, habitante da cidade grande, acostumado com luz elétrica, entregador de pizza, televisão, poluição, telefone celular e computador não entende nada de Saci e só vai ver o Saci no dia de São Nunca. Acontece que o Saci é filho do mistério, filho do vento que assobia, filho das sombras que formam figuras no escuro, filho do medo de assombração.

O Saci é uma dessas coisas que ninguém explica. Por exemplo, é muito fácil explicar uma casa. Ela tem tijolos, paredes, janelas e serve para morar. É muito fácil também explicar um cachorro. Pertence à espécie canina, late, abana o rabo, às vezes morde, faz xixi no poste, é amigo das pulgas(bem alguns nem tanto) e serve para tomar conta de casas ou apartamentos. Agora tente explicar o gosto. Por que tem gente que só gosta de Rock Pauleira e tem gente que só ouve musica Clássica ou então Pagode?

Experimente explicar a beleza ou o sentimento, ou as coincidências que acontecem, ou sonhos, ou um pressentimento. Você já teve um pressentimento? Já sentiu que uma coisa ia acontecer e no fim ela aconteceu mesmo? Pois bem, agora tente explicar.

As vezes a gente está calmamente em casa com algo na mão. O telefone toca, a gente atende, bate um papo e quando desliga cadê a coisa que a gente estava segurando? Sumiu! A gente não consegue acreditar. A coisa estava aqui agorinha mesmo! A gente procura em todo canto, xinga, reclama, arranca os cabelos, vira a casa de cabeça para baixo e nada. De repente olha para o lado…Não é possível! A coisa está ali bem na cara da gente. Numa casa de Caboclo, quando isso acontece, as pessoas dizem que foi obra do Saci. Dizem que o saci é que tem mania de esconder as coisas e depois fica escondido dando risada enquanto a gente faz papel de bobo.

É, Saci é um ser misterioso, habitante do mato. Sua aparência é a de um negrinho, pequeno e risonho, de uma perna só, com um capuz vermelho enterrado na cabeça, sem pelos no corpo nem órgãos para fazer necessidades. Costuma ter três dedos nas mãos, tem as mãos furadas e quando quer solta um assobio misterioso e fica invisível. Além disso vive com o joelho machucado e sabe comandar os mosquitos e pernilongos que vivem atazanando a vida da gente.

Ah, tem outra coisa, o malandrinho aprecia fumar cachimbo e consegue soltar fumaça pelos olhos. Quando está de bom humor pode ajudar as pessoas a encontrarem objetos perdidos. Em compensação, adora pregar as piores peças nos outros, faz os viajantes errarem seus caminhos, esconde dinheiro, esconde coisas de estimação, faz vasos, pratos e copos caírem sem motivo e quebrarem, gostar de aprontar com os bichos e é especialista em fazer comida gostosa dar dor de barriga.

De vez em quando, o saci sai girando em volta de si mesmo feito um peão maluco e gira tanto, tanto, tanto, que até levanta as folhas secas e a poeira do chão. Alias, muitos afirmam que ele é a única explicação possível para a existência dos roda moinhos.

O Saci tem vários nomes dependendo da região onde aparece. Pode ser Saci-Sererê, Saci-Pererê, Saci-Sassura, Saci-Sarerê, Saci-Siriri, Saci-Tapererê ou Saci-Triti. As vezes é chamado de Matitaperê, ou Matita-Pereira, ou Sem-Fim, que na verdade são nomes de pássaros. É que em certos lugares dizem que o danado, quando perseguido, dá risada, vira passarinho e desaparece deixando todo mundo de queixo caído.

Mas, o Saci pode ser perigoso. As vezes, chama as criancinhas, canta, dança, inventa lindas histórias e acaba fazendo as inocentes se perderem na floresta. Pode também fazer um caçador entrar no mato e nunca mais voltar para casa.

Para dominar o Saci só tem um jeito. Primeiro, pegar uma peneira. Segundo, esperar um rodamoinho dos fortes. Terceiro, atirar a peneira bem em cima do pé-de-vento. Quarto, agarrar o Saci que vai estar preso na peneira. E quinto, prender o espertinho dentro de uma garrafa. Sem aquele goro vermelho o Saci fica apavorado, geme, choraminga, fala palavrão, implora e acaba fazendo tudo que a gente quer.

É bom morar na cidade, mas, bem que seria legal, um dia, assim derrepente, encontrar um Saci de verdade fazendo bagunça, fumando cachimbo, soltando fumaça dos olhos, virando passarinho e sumindo no espaço. É ou não é?

AZEVEDO, Ricardo. Armazém do folclore. Ed.Ática, São Paulo, 2003.

 

Sites do Saci:

Sociedade dos observadores de Saci: http://www.sosaci.org/

Aparições do Saci: http://eosaciurbano.art.br

 

 

Ação Grio – Políticas Públicas para o Contadores de Histórias

Lá vai, lá vai, lá vai, a sandália leva o homem e o homem a história.
Musica do mestre Griô Paraquedas do Ponto de Cultura Odômodê

São tempos de novos olhares para antigas expressões culturais que hoje alguns classificam como arte. Nesse bojo está o fazer do Contador de História. Pensando nesse tema aproveito esse espaço para escrever uma postagem relacionada a políticas públicas envolvendo o contar histórias, um tema tão especial a mim. Começo pela “Ação Grio”.

As primeiras lembranças que tenho dessa ação vem de reflexões e considerações feitas por integrantes do projeto “Grãos de Luz”, de Lençóis – BA, que com o tempo ganhou espaço de fomento pelo Ministério da Cultura. Em 2006 a ação ganhou seus primeiros formatos já com esse nome, numa associação ao programa Cultura Viva. Lembro-me de ter participado da 1° Teia Nacional dos Pontos de Cultura e de ter encontrado Líllian Pacheco e Márcio Caíres num debate e de ter conhecido o documentário que na época eles havia empreendido com registros de viagens pelo Brasil e ações locais em Lençois. (foto ao lado)

Desta ocasião em diante o projeto só cresceu e ganhou cada vez mais cores, sons e desdobramentos. Houve ampliação das ações em formato de rede (Rede Ação Griô), encontros regionais, participação dos integrantes em fóruns e espaços de discussão e fomento cultural, entre muitas outras coisas.

A Rede Ação Griô, por exemplo, se articula na maioria dos casos em conjunto com a dos Pontos de Cultura, o que fortalece ambas. Um exemplo, no sul do Brasil, é a parceria entre o Quilombo do Sopapo e a Ação Griô de Pelotas, encontro que resultou registro audiovisual sobre a construção do sopapo pelo Mestre Batista e na composição de músicas por Richard Serraria e Marcelo, músicos e ativistas do movimento Música para baixar. O sopapo é um instrumento de percussão muito importante para a cultura afrogaúcha e também para a rede de culturas do Brasil e certamente o encontro de pontos de cultura ligados a cultura digital pode fortalecer e estabelecer trocas importantes com a Ação Griô.

Ação Griô, em poucas palavras portanto, é uma rede de educação e cultura de tradição oral. Faz parte do Programa Cultura Viva do Ministério da Cultura enquanto apoio por meio de alguns editais o que não impede de num futuro próximo ou distante essa caracterização mudar. Entre seus objetivos principais está a estimulação da ligação entre os educadores e a comunidade numa perspectiva da transmissão dos saberes por meio de narrativas de tradição oral.

Este é o portal da ação: http://www.acaogrio.org.br

O canal deles no YouTube está recheado de muita coisa bonita e interessante: http://www.youtube.com/user/graosdeluz

Se você também conhece outras políticas públicas voltadas a Contadores de Histórias ou mesmo outras ações públicas ou privadas que estejam relacionadas a temática, deixe um comentário por aqui. Listo abaixo alguns vídeos interessantes que descobri pelos caminhos da rede. Se souber de outros que trazem menções, canções, danças, performances ou vivências parecidas, compartilhe por aqui também!

Pequeno documentário sobre o projeto Grãos de Luz e Griô:

E aqui uma entrevista com Marcelo Manzatti, atropólogo que na época deste registro era responsável por algumas das frentes desse projeto junto ao Ministério:

Lá vai, Lá vai… – Mestre Paraquedas e PC Barbosa: