Narrativas Populares – Projeto EJA Guarulhos

Ago 24, 12 • Enredos da Terra, HomeNo Comments

“O mito é a parte escondida de toda história, a parte subterrânea, a zona ainda não explorada porque faltam ainda as palavras para chegar até lá. Para contar o mito, a voz do contador no início da reunião tribal quotidiana não basta. É preciso lugares e momentos particulares, reuniões especiais. A palavra não basta; o concurso de um conjunto de significados polivalentes, isto é, um rito, é necessário.”
CALVINO, ÍTALO. A combinatória e o mito na arte da narrativa.
Própria das algumas classes ditas iletradas, a tradição oral, sobretudo em suas manifestações de mitos, lendas e ‘causos’ em geral, tem sido muito valorizada por acadêmicos que se dedicam ao seu estudo e compilação. Considera-se que é na tradição oral que se fundamenta a identidade cultural mais profunda de um povo e particularmente concordo com essa consideração.
Dentro desse panorama, estuda-se, por exemplo, desde obras gregas clássicas como Ilíada e Odisséia, tendo como quase certo que foram inicialmente longos poemas recitados de memória, até manifestações bem atuais e regionalizadas, comuns entre determinados grupos sociais no Brasil, como os ciclos de João Grilo, Pedro Malasartes, Camões, entre outros.
Mas, para fora dos círculos acadêmicos pouco se tem falado, ou pouca importância se tem dado para e relação mitopoética que pessoas de classes populares têm com sua língua, com suas concepções de mundo, suas crenças e concepções do divino…
A partir disso, gostaria de comentar sobre um trabalho desenvolvido na cidade de Guarulhos, grande São Paulo, na modalidade EJA – Educação de Jovens e Adultos – que contraria um pouco essa corrente e leva o tema das narrativas míticas para dentro das salas de aula mais populares a fim de trazer o tema a quem é de direito: o contador de histórias popular.
Durante 4 anos – de 2005 à 2008 com continuidade em 2009, o que leva a quase 5 anos de tempo – tive a oportunidade de desenvolver o projeto “Narrativas Populares – Contadores de História da EJA”.
Tal projeto começou de uma iniciativa de implantação de projetos de arte-educação no currículo da Rede Municipal de Educação de Guarulhos. Entre os projetos estava e ainda está o Projeto de Contar Histórias, sob a coordenação do educador e pesquisador Daniel D’Andrea, que esteve ativamente envolvido no processo de implantação do projeto de contar histórias.
Trabalhei/trabalho neste projeto como arte-educador desde 2004. Em 2005 o projeto foi estendido para a modalidade EJA. Tive a oportunidade desde então de desenvolver, dentro do projeto de contar histórias, o Projeto Narrativas Populares cujo foco, além de ter como eixo o Mundo do Trabalho, valorizava a recolha e a sistematização de contos populares, com a possibilidade também de formar grupos de contadores de histórias da EJA.
Esse projeto culminou em muitas ações e produtos. Entre as ações mais interessantes estão as várias rodas de contar, feitas periodicamente durante o ano. E entre os produtos estão os contos filmados, gravados e escritos. Foi, ao meu ver, uma experiência de enriquecedora tanto para mim como arte-educador como para os educandos participantes. Muitos se entregaram de tal modo que nunca faltaram as aulas e, atualmente, passaram a enxergar a escola como um espaço de construção de saberes culturais, coisa que antes era vista como desnecessária.
Aproveitando a deixa, não poderia deixar de citar a grande colaboração dos educadores e gestores das escolas em que o projeto esteve presente. Com especial destaque para a Escola Municipal Nelson de Andrade, onde praticamente toda a comunidade escolar de EJA esteve ativamente envolvida.
Nesta escola, muitas rodas de contar foram feitas durante o ano de 2008. Trago, com o vídeo acima, um pequeno recorte do trabalho. O vídeo mostra uma das alunas mais aplicadas do projeto, contando um ‘causo’ de Lobisomem que ouviu da própria mãe, há mais de 25 anos, na Bahia, sua terra natal.
A aluna Ana, e tantos outros alunos que compõe as turmas de EJA da cidade de Guarulhos, é parte de uma considerável porcentagem de migrantes vindos dos estados no norte e nordeste para São Paulo. Com a mala cheia de sonhos, muitos perderam sua identidade cultural ao se depararem com a selva de pedra, onde só sobrevive quem consegue se encaixar num cruel e desigual esquema de mercantilização da força de trabalho.
Lutemos contra o desenraizamento e a perda da identidade cultura! Contando nossos causos, pondo a palavra no mundo, revivendo saberes esquecidos, montando novos saberes, compartilhando conhecimento e vivenciando um outro espaço vamos fazendo aquilo que mais gostamos: Contar Histórias!

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BOSI
, Eclea. Memória e Sociedade: lembrança de velhos. São Paulo: T.A. Queiroz, 1983. 
CALVINO
, Ítalo. A combinatória e o mito na arte da narrativa. In: LUCCIONI, G. et. al. Atualidade do mito. São Paulo: Duas Cidades, 1977.
 
______.
 O castelo dos destinos cruzados. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.
 
LE GOFF
, Jacques. História e Memória. Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 1996.

 

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Felipe Cabral

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