O Sexto Lobo

Ago 31, 12 • Enredos da Terra, HomeNo Comments

Um dos textos mais emblemáticos da obra de Sigmund Freud, inicialmente publicado em “A História de uma Neurose Infantil” e depois reeditado em “Obras Completa”, de título “O Homem dos Lobos”  traz uma curiosa descrição sobre o caso de Sergei Pankejeff, um paciente aristocrata russo que certa vez teve um sonho com uma matilha de lobos brancos em cima de uma árvore.

Das anotações de Freud:

Sonhei que era noite e que eu estava deitado na cama. (Meu leito tem o pé da cama voltado para a janela: em frente da janela havia uma fileira de velhas nogueiras. Sei que era inverno quando tive o sonho, e de noite.) De repente, a janela abriu-se sozinha e fiquei aterrorizado ao ver que alguns lobos brancos estavam sentados na grande nogueira em frente da janela. Havia seis ou sete deles. Os lobos eram muito brancos e pareciam-se mais com raposas ou cães pastores, pois tinham caudas grandes, como as raposas, e orelhas empinadas, como cães quando prestam atenção a algo. Com grande terror, evidentemente de ser comido pelos lobos, gritei e acordei. Minha babá correu até minha cama, para ver o que me havia acontecido. Levou muito tempo até que me convencesse de que fora apenas um sonho; tivera uma imagem tão clara e vívida da janela a abrir-se e dos lobos sentados na árvore. Por fim acalmei-me, senti-me como se houvesse escapado de algum perigo e voltei a dormir.” (Freud 1918)

Confesso que nunca pensei muito sobre esse caso, apesar de ter achado interessante quando li há uns 5 anos. Recentemente perguntei ao Contardo Calligaris sobre referenciais e uma melhor definição para o que ele costuma chamar de “comportamento vulgar” ou “vulgaridade de manada” e ele recomendou-me a leitura de “Clínica do Social: Ensaios”, publicado pela Editora Escuta, no qual há um texto dele intitulado “A Sedução Totalitária” que apontaria dizeres sobre isso. No entanto, ao deparar-me com o livro, eis que tenho uma memória recuperada: está na contra capa os seguintes dizeres:

“Um dos pacientes mais famosos de Freud passou a ser conhecido como o ‘Homem dos Lobos’, por um sonho, também famoso, no qual – segundo o paciente refere – se trata de ‘seis ou sete lobos’. O paciente desenhou a cena do sonho, mas no desenho só apareceram cinco lobos.

É legítimo se perguntar então onde passaram o sexto e o setimo lobos. E mais especificamente, escolhendo o sexto, fazer dele o emblema de algo que as vezes possa – no cotidiano da prática psicanalítica – vir a ser desconhecido. De que se trata?”

Essa pergunta me chamou muita atenção e sinto que não há uma resposta única para ela, mas está posto para mim que o estudo do clínico de uma sociedade , conforme propõe a obra citada e o trecho provocador, é sem dúvida um fator preponderante no entendimento da psique de um povo sob um território. Isto é, para além dos indivíduos existe uma soma (seria soma? ou multiplas camadas de influência?) de subjetividades que alteram o comportamento coletivo de um grupo. E lançar luzes sobre isso, de uma perspectiva interna, é também tentar a terapia ou a análise da sociedade ou de um grupo ao qual se está inserido.

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Felipe Cabral

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