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Todos os sentidos em Três Corações

Relato sobre a experiência da educação não-formal com a produção de minidocumentários em software livre na semana de tradição oral de 2012 do Museu da Oralidade de Três Corações – MG

Esta é uma escrita breve sobre momentos densos. Um relato curto de uma experiência marcante. Se Drummond pudesse dizer algo sobre isso, talvez dissesse “Brincar com crianças não é perder tempo, é ganhá-lo; se é triste ver meninos sem escola, mais triste ainda é vê-los sentados enfileirados em salas sem ar, com exercícios estéreis, sem valor para a formação de alguém“. Aos que aqui se aventurarem na leitura, peço licença para contar o que se passou do jeito que consegui ver e desculpas por não conseguir presentificar cada um dos sentidos apalpados, olhados, cheirados, ouvidos e gostados pois foram todos vividos. Então vamos lá…
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Ideias com pé e cabeça

Certo dia, com muito tato e simpatia, recebi uma ligação de Minas Gerais da qual não sabia identificar o número. Atendi e do outro lado estava o jornalista Paulo Morais, um dos atuais gestores do Museu da Oralidade da cidade de Três Corações.

Para quem não conhece ou não se lembra, Três Corações é uma das cidades situadas na Serra da Mantiqueira, no sul do estado de Minas Gerais. Paulo ligava para fazer um convite e ao mesmo tempo propor um desafio. O Museu iria sediar a 2° edição da Semana de Tradição Oral de Três Corações e eles queriam fazer algo diferente. Ao invés de construir uma programação com mostras de documentários a ideia era produzir, isto é, colocar a mão na massa, e promover a experiência de fazer documentários, expondo os participantes a vivências de produção. E não acabava por aí. O desafio dessa empreitada estava em produzir esse documentários com softwares 100% livres (open source).

 

“Sem a curiosidade que me move, que me inquieta,
que me insere na busca, não aprendo nem ensino”
Paulo Freire

 

Titubeei um pouco, estava cheio de compromissos pendentes e uma viagem internacional marcada, mas logo aceitei o desafio. Mal sabia que isto resultaria numa das experiências mais plenas dentro das perspectivas de ação educativa não-formal propostas outrora pelo programa Cultura Viva. Depois dessa ligação, tempo passou, até que chegou o dia de ir até lá…
Quantos olhares são necessários para iniciar um trabalho em conjunto? Quantos olhares são trocados antes que afinidades sejam percebidas? Dificil dizer. E quando não é necessário nenhum olhar trocado? Nenhum olhar para que as coisas fluam de uma maneira tão rápida e integrada que quem vê de longe tem certeza que os dalí se conhecem há anos? É a sintonia que faz isso, diriam alguns. Particularmente não sei dizer, mas arrisco um palpite: para cada sentido desejado existe um meio potente e possível, muitas vezes afirmado nas entrelinhas, de realização disso e a percepção desses movimentos pode se dar muito mais rápido do que qualquer protocolo é capaz de comunicar.
Cheguei na cidade numa quarta-feira, dia 16 de maio. Não foram necessários muitos olhares trocados para perceber que queriamos olhar e buscar as fotografias mais sinceras dos retratos mais cadentes daqueles lugares por onde passassemos.   Sai de São Paulo no inicio de uma madrugada fria e o dia foi amanhecendo enquanto eu dormia. Saí do cinza e dos prédios e cheguei numa praça com um jardim, cercada de ladeiras estreitas.
O trabalho já havia começado. Desde segunda-feira o Paulo havia reunido as turmas e começado a falar sobre o que era um documentário, para que as pessoas achavam que servia, pra que achavam que não servia, como eram feitos os roteiros, como eram os processos de produção envolvendo captura de imagens, coleta de depoimentos, edição, pós-edição e uma porção de coisas que deixaram o povo bem intrigado.
Quando cheguei me deparei com um grupo bastante heterogêneo: crianças, adolescentes, adultos, de 10 a 55 anos. Fizemos uma roda. O dia começou em silêncio e aos poucos cada um foi falando pouco a pouco porque estava ali. Mal sabíamos que sairíamos dessa experiência bastante transformados…

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Roda gira, gira roda…

Depois de uma apresentação coletiva na qual cada um era convidado a falar sobre sua idade, interesses de estudo, gostos e jeitos de aprender, comecei a mostrar e a descrever os equipamentos que usaríamos. Entre nossas ferramentas iamos ter duas câmeras que filmavam em (full hd 1920×1080) no formato AVCHD, 3 ou 4 câmeras de fotografia de bolso, celulares, um microfone com entrada p2 para as câmeras e um gravador de voz. A ideia era aproveitar qualquer coisa que estivesse a mão para os registros, sem se ater necessariamente ao uso de equipamentos considerados profissionais.

Foram formados 6 grupos, sendo 3 de manhã e 3 a tarde. Cada grupo escolheu um tema, sem qualquer tipo de censura ou preâmbulo, para trabalhar. Os grupos do período matutino escolheram os seguintes documentários para construir:

  • Grupo 1) O Sorriso – Minidocumentário sobre os valores e significados contidos em um sorriso;
  • Grupo 2) As esculturas do sr. Oswaldo – Minidocumentário sobre o fazer artístico do famoso artista de madeira Oswaldo Inácio;
  • Grupo 3) Composição – Um metadocumentário que tinha como pressuposto documentar o processo de feitura dos documentários anteriores.

Já os grupos do período vespertino escolheram estes outros:

  • Grupo 4) OnLine / OffLine – Minidocumentário que trás dois senhores de mais de 60 anos e suas respectivas visões sobre a Internet, sendo um deles super conectado e o outro o inverso;
  • Grupo 5) Intransitivo – Minidocumentário sobre as dificuldades enfrentadas por pedestres e motoristas no trânsito da cidade de Três Corações;
  • Grupo 6) Vitrais da História – Minidocumentário sobre os centenários vitrais das antigas igrejas de Três Corações.

Escolhidos os temas, cada grupo passou 2 dias (segunda, terça) coletando as imagens principais e os demais dias coletando imagens complementarem, intercalando momentos de gravação/captação com momentos de edição. Durante todos os dias, no meio da manhã e no meio da tarde, éramos interrompidos por um intenso e delicioso cheiro de café e pão de queijo que vinha logo seguido do convite para invadir a cozinha. De todos os sentidos o paladar também estevem presente.

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Do processos e das receitas

Todo processo de educação não-formal pode ser muito beneficiado, na minha opinião, quando feito sob pauta de uma boa documentação e de bons parametros, sem que isso tenha necessariamente que significar a imposição de receitas ao processo. Pensando assim, elaborei um roteiro prévio, como uma espécie de plano de aula, a ser tomado como base, de modo a não comprometer as possibilidades de experimentação ou as possíveis limitações que ísurgissem ao longo do caminho. Este roteiro foi apresentado aos participantes como uma maneira de dizer que poderiamos seguir esse plano. Os escritos ficaram registrados e podem ser acessados aqui na Wiki do projeto Nós Digitais:

 

 

Entre as perguntas iniciais que facilitam bastante a tomada de consciência das identidades do grupo e as possíveis decisões coletivas estão:

 

1 – Orientador/Oficineiro se apresenta;

2 – Rodada de apresentação dos participantes com as seguintes perguntas norteadoras

2.1 – Nome? Idade? Região de origem? Profissão/Trabalho/Área de Estudos?

2.2 – Como é sua experiência com computador? Iniciante? Médio? Avançada? Usa para trabalhar?

2.3 – Qual sistema operacional que costuma utilizar?

2.4 – Já conhece quais softwares de edição gráfica?

2.5 – Quais são seus interesses na oficina?

2.6 – O que gostaria de aprender?

3.0 – O que é Software Livre?

3.1 – O que faz de um software ser “Livre”? (vale lembrar que o tempo e a profundidade de abordagem dessa questão pode variar de acordo com a percepção do educador);

4.0 – O que são licenças permissivas?;

A escolha de uso da wiki está intimamente ligada a proposta de livre melhorias, alterações e derivações desse tipo de documentação. Sendo assim, tanto eu, na posição de oficineiro, quanto o Luiz de 11 anos que participou da oficina na posição de documentarista, podem ter um espaço compartilhado de trabalho e registro na web.
Como ferramentas digitais de trabalho escolhemos usar o Kdenlive. Mas podiamos ter usado qualquer outra ferramenta opesource como o Cinelerra, o Jahshaka, o Blender ou mesmo o Lives.

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Seis Mini produções e uma noite de exibições

Ao todo, durante essa semana de tradição oral, foram realizados 6 minidocumentários de duração de 5 minutos. Cada qual com um tema totalmente distinto dos demais, como já mencionado acima. Os documentários experimentais e frutos desse processo de aprendizagem-criação foram todos finalizados e exibidos ao final desta jornada de uma semana de trabalho. Mas antes deste exibição que marcou um pouco a conclusão desta semana de imersão, destaco dois momentos marcantes que também fizeram parte das comemorações: a exibição do documentário ≠ Diferente (linkado como 7° vídeo abaixo) produzido pela equipe do Museu e a apresentação musical do grupo Ciranda Balaio de Minas (foto acima).
Por fim, quero agradecer ao Paulo Moraes, a Andressa Gonçalves, a Danielle Terra, ao Ronildo Prutente, a todos os demais membros da equipe do Museu da Oralidade e da Viraminas, ao Luiz Guilherme de 11 anos que quase cabulou as aulas na escola para participar mais, aos demais participantes das oficinas, aos entrevistados e entrevistadas para os documentários, ao público que esteve conosco e que veio assistir as apresentações. Muito obrigado a todos vocês. Espero encontrá-los novamente um dia, seja fazendo documentários ou em qualquer outra situação.
Seguem abaixo os vídeos.

As esculturas do Sr. Oswaldo

Intransitivo

Online Offline

Vitrais da história

Composição

  ≠ Diferente

Onde foi?
Semana de Tradição Oral
Local: Museu da Oralidade
(Rua Padre José Bueno, 170 – Centro – ao lado da Escola Luiza Gomes)
Apresentações e oficinas: de 15 a 18 de maio de 2012
Informações: 011 3231-2690
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